Ligo o motor. Espero uns minutos. Observo os números quietos no conta-quilómetros. Esfrego os olhos, ainda preguiçosos. Faço marcha-atrás, enquanto avalio, pelo retrovisor, a distância que me separa do carro do vizinho que não conheço. Reparo que o lugar do lado está, ao contrário do que é costume, ocupado.
Sigo em frente. Espero, impaciente, que a porta pouco despachada se abra na totalidade. Depois dela, a chuva molha a estrada. Hoje, vou experimentar um percurso alternativo. Talvez mais interessante ou igualmente entediante. As notícias desprendem-se do rádio.
Crise. Cortes. Corrupção. Sinónimos de um país desgovernado, sem freio. Mudo de estação. Passa música clássica. Deixo ficar. Lembro-me de desejar uma atmosfera tranquila no regresso a casa, depois de 163 quilómetros de curvas e contra-curvas, de marcha reduzida por causa de motoristas monótonos, de paisagens que casam Homem e Natureza.
Os penedos que hoje observo vão manter-se por ali, inertes e silenciosos. São testemunhos pesados de outros tempos. Enfrentam, destemidos, os dias vindouros. Acautelam a robustez no cimo de um outeiro vestido de giestas rasteiras.
Como se de um segredo se tratasse, guardam os carros que passam desenfreados, os que seguem devagar, os que param para fotografar a paisagem e/ou os que trazem à boleia. Resistem com a mesma impassibilidade às estações do ano.
Penso, pois, na efemeridade da vida. Na nossa frágil condição que, sem nos darmos conta, é uma espécie de sentença de execução sem aviso prévio. Hoje, perante estes penedos, penso nos problemas que estupidamente ensombram o presente, nas aflições dramatizadas, nas alegrias resumidas, nas saudades enfaixadas.
Adiante, há toda uma montanha penteada de verde. Não sou boa a distinguir as árvores, mas vislumbro um ar puro, percursos pedestres tranquilos, os sons distintivos dos animais. Penso nos piqueniques em família, em passeios de Domingo, noutros tempos despreocupados e feitos de encontros.
Atravesso localidades. Reparo nos nomes inusitados. Bóbeda, que na minha terra significa abóbora, dá também nome a uma aldeia. E a gama é variada: Vilela da Cabugueira, Zimão, Telões, Gralheira, Benagouro, Escariz, etc.
Num pasto, duas dúzias de ovelhas passeiam-se sem pressa, longe do olhar zeloso do pastor. Dele, o único sinal (e dos tempos modernos também), só uma cadeira de plástico debaixo de um sobreiro.
A aproximação a um pequeno povoado traz uma nova imagem: um espigueiro datado de 1850. Recupero os penedos no cimo do outeiro. Continuarão, inexoravelmente, imponentes e sérios.
Saio da estrada sinuosa. Vislumbro a profusão de sinais e cores, prenúncios de trânsito, movimento, caos - o adeus adiantado à tranquilidade de uma viagem.
Se tudo está sujeito
à infalibilidade das leis da matemática, questiono-me se haverá, realmente, métrica
para a solidão das horas quietas.
Se tudo está subjugado
à passividade das leis que os doutos escrevem, pergunto-me se haverá permissão
para os imprevistos que se intrometem nas vidas.
Se tudo se presta a
regras e códigos (recriados, obrigatórios, auto-impostos), onde cabe a
imaginação para inverter o sentido, a ousadia para descobrir, o espírito
crítico para aperfeiçoar, a ambição de querer seguir pela sombra?
Nesse futuro que havemos de viver, teremos serenidade a perfumar os
dias desempoeirados.
Ficaremos enjoados de televisão, computador e telemóvel, da pressa, do
conflito, da competitividade que hoje nos impõem, dos lembretes e das anotações,
da lista de compras e da agenda sem espaços em branco.
Voltar-se-ão a ouvir os risos das crianças a brincar na rua, a correr
atrás da bola ou a jogar ao peão. Voltar-se-ão a ouvir as discussões à volta de
um jogo de cartas, no final da tarde, enquanto se aprovam os petiscos que
repousam sobre a mesa.
Haverá energia para acordar
bem-disposto, para explorar os recantos e os poemas, para encarar quem se cruza
connosco e dar os bons-dias, para fazer compras nas mercearias, para cuidar das
flores, para empurrar os nossos filhos no baloiço ou ajudá-los com os trabalhos
de casa.
Haverá tempo para deixar de desejar que o cheiro a bolo de laranja, ao
domingo à tarde, venha da porta ao lado. Seremos, pois, convidados bem-vindos, depois
de tocar à campainha.
Soltaremos
gargalhadas, respiraremos profundamente e abraçaremos esse pôr-do-sol por fim.
Refugiar-nos-emos para escrever, para apreciar a solidão sentida de
coração cheio.
Haverá tempo de acender a lareira, ficar junto de quem gostamos e ter
apetite de conversas longas.
Provaremos que o nosso lugar é neste tempo feito de alma, que hoje como
antigamente desejamos com a mesma intensidade.
A primeira vez que o vi passar, quase não acreditei. Creio que até me ri. Distraidamente, o insólito pareceu-me tão surreal, tão irrisório, tão longínquo.
Devo ter voltado a cabeça, colocado o cabelo atrás da orelha direita e caminhado na direcção oposta, com passo seguro.
Já vi muitos crepúsculos. Já experimentei bastantes coordenadas. Já estudei vários mapas. Já fiz tantos quilómetros. Já perdi de vista o 703 que (não sei com que frequência) passava quase debaixo da minha varanda.
Tenho tantos sonhos… Simples, egoístas, exigentes, legítimos. Cuido deles com desvelo, mas não deixo que os conheçam. São meus, inexpugnavelmente meus. São o território protegido por arame farpado. São o meu passaporte secreto.
Trago-os no peito, sempre. Às vezes, elevam-me, outras, curvam-me o ânimo. Tenho tantos sonhos inconfessáveis e nunca entrei nesse autocarro.
Já apanhei chuva, vento e sol, debaixo dessa paragem. Já partilhei o banco, a manhã, o tédio com os estranhos que esperavam como eu. Já aturei gente desinteressante, dramática, bem-parecida, tagarelas no fundo.
Já senti os ombros cansados, as costas, os pulsos, os pés doridos. Já passei noites em sobressalto, com medo de não conseguir acordar a horas de chegar a tempo. Já saí de casa sem tomar o pequeno-almoço para não me atrasar.
Já deixei bilhetes de despedida, de agradecimento ou com promessas de voltar. Já carreguei malas pesadas, subindo e descendo ruas e vielas. Já falei dessas viagens, dedilhando ilusões e esperanças.
Já corri para chegar à paragem, mas nunca cheguei a apanhar esse andarilho que me levaria até sonhos, como promete a todos os que vêem o painel.
Esse autocarro circula por aí, cruzando as ruas indiferente às multidões. Esse autocarro talvez tenha o destino certo, a rota sem falhas, o caminho sem desvios, enganos ou proibições.
Nunca ousei entrar... Escolhi sempre outros autocarros ou o metro ou, mais tarde, o carro. E até agora nenhum me ajudou a chegar a essa terra utópica.
Se um dia descer desse autocarro, com nervosismo e ansiedade ou tão-somente aliviada, talvez encontre novos rostos, a possibilidade de escrever mais histórias, a adrenalina de viver, outras certezas.
Podes não a ver.
Nem a sentes.
Mas, nesses entardeceres sombrios,
ela está no ângulo morto do meu sorriso.
Podes não a tocar.
Nem a imaginas.
Mas, nesses intervalos festivos,
ela grita na minha voz mais pausada e melancólica.
Podes não a notar.
Nem a compreendes.
Mas, nesses silêncios roucos,
ela abraça-me sorrateira e com tanta força.
Penso em ti como uma inevitabilidade.
Talvez pressintas.
Mas ela, indecorosa, torce-me a saudade
ao ponto de não restar se não uma dor sem convalescença.
Estava ao canto, junto das portas envidraçadas na entrada
principal da pastelaria. Estava ali, ao canto, tão abandonado como ausente.
Esperava entediado com o vagar do tempo.
Ao lado, uma mesa ocupada por um homem engravatado em fato
elegante e um miúdo de oito anos embeiçado por uma bola de berlim.
Esperavam entretidos.
Lá do canto, ele tinha perspectiva para a preguiça de final do dia
dos empregados. Torpes e indolentes.
O homem engravatado manuseia um ecrã luminoso e impacienta-se com a
insistência do filho que o observa, inquieto.
Os seus olhares nunca se cruzam.
Há demasiada indiferença, uma pressa excessiva, um desdém
insolente para reparar o outro, para fixar o seu rosto. Seguimos, anestesiados,
nessa romagem em areia grossa.
O homem engravatado e com fato elegante ergue-se repentino. Levanta
o braço e faz sinal ao empregado momentaneamente solícito. Deixa os trocos e
puxa o filho pela mão.
Passam por ele, que continua apoiado sobre o tampo da mesa ao
canto, abraçado por essa solidão que fica depois de todos partirem para os seus
afazeres.
Cai chuva do outro lado da janela.
Deste lado, as palavras saem enxutas
De um coração enlameado.
É difícil distinguir a intensidade com que chove.
Há desejos derrotados por ambições sem sentido.
Cai chuva do outro lado da janela.
Deste lado, os gestos frios
E as certezas sepultadas.
Sim, fica prometido. Um dia vou levar-te a todos os baloiços suspensos, que estão entregues às carícias do vento ou à imobilidade total. Talvez não passem de infraestruturas de diversão obsoletas e solitárias, mas, nesse futuro que havemos de viver, não ficarão imunes às traquinices.
Um dia, vou empurrar-te sem que tu me peças, pois sei bem o bom que era sentir-me a tomar balanço quando as pontas das minhas sapatilhas mal tocavam o chão. Sei que não haverá disputas para ganhares a vez (ou talvez a minha profecia possa vir a revelar-se errada).
Um dia, vou entregar-te uma bola nova e ensinar-te-ei a dominá-la com os pés. Jogaremos em campos improvisados, com linhas imaginárias, pedras sobrepostas a fazer as vezes de postes das balizas. Não haverá lances polémicos nem jogadas de má-fé. Sim, vou deixar-te correr e saltar e brincar e rir.
Vou proibir que te aninhes no sofá antes do teu corpo se sentir extenuado. Vou proibir-te de ficares horas em frente à televisão (à excepção dos desenhos animados nas manhãs do fim-de-semana) ou de pedinchares um telemóvel (ou a tecnologia em vigor na altura) porque "toda a gente tem".
Quero que cresças a pular na rua, a andar de bicicleta pelo bairro, a jogar à bola com os vizinhos, a festejar os aniversários em garagens e não em restaurantes de fast food. Vou levar-te aos sítios da minha infância e deixar-te conviver com aqueles que me ensinaram a crescer feliz.
Sim, vou permitir que explores os meus brinquedos, os meus livros, os meus cd's e todos os outros objectos que nunca saberão contar os anos que têm. Talvez venhas a achar tudo demasiado antiquado ou, às tantas, até encontrarás algum interesse em coisas tão diferentes das do teu tempo.
Ensinar-te-ei a brincar com os legos, a construir vidas imaginárias para os bonecos que segurares nas mãos, a teres um peluche de estimação. Talvez venhas a ter um amigo imaginário (como eu) e vou lembrar-me de como a minha mãe, ainda hoje, recupera esses episódios para saber como nunca me esquecer dos teus.
Um dia, vou proteger-te dessa indiferença mundana. Vou mostrar-te que é simpático cumprimentar as pessoas na rua, com "bom dia" ou "boa tarde", especialmente quando forem velhinhos. Vou mostrar-te como é importante conhecer os vizinhos do prédio e os da frente. Vou ensinar-te a partilhar com quem precisa e a respeitar os outros, principalmente os que forem diferentes de ti.
Um dia, vou deixar de te carregar ao colo para te passar a dar a mão até ao dia em que te verei caminhar pelo próprio pé e sem amparos.
Eu, aqui, pego na caneca vazia e caminho para a cozinha. Seguro-a com dois dedos apenas, pela asa. Fica meia suspensa entre a certeza que não a deixarei cair e a fragilidade do material de que é feita.
Tu, aí, afastas os lençóis e sentaste na borda da cama à procura dos chinelos. O frio do soalho embate na planta dos pés, sentindo o desalento dos passos por dar.
Ambos sabemos que o pior de não ter trabalho é nem tanto a independência que ambicionámos, mas a frustração de nos sentirmos incapazes de lidar com tanto tempo disponível.
Parece que, de repente, nos roubaram de forma impiedosa e ficámos de mãos vazias e braços enérgicos. Não há motivos para abraçar o mundo feito pelos outros, mas também não existe vontade para nos debruçarmos sobre o nosso. Perdemos a paciência por tudo e por tão pouco.
Vivemos numa utópica esperança de voltar a ser, como antes. Naquele tempo em que 24h se esgotavam e não fazíamos tudo o que queríamos. Naquele tempo em que os objectivos se sobrepunham aos desejos e aos caprichos. Naquele tempo em que não sentíamos cansaço ao acordar.
Não sabemos como voltar ao que um dia já fomos, mas fazemos fé no contrário. Queremos recuperar essa força com que nascemos e que, paulatinamente, ledo e indiferente, o presente foi amortalhando.
Na lucidez irrepreensível, desejamos que o mesmo presente molde os nossos caracteres para adaptá-los aos dias de hoje. É necessário maior frivolidade, objectividade, calculismo, desapego.
Eu, aqui, tenho saudades dessas roupagens com cheiro a naftalina que usámos para combater o tempo que já nos pesa.
Tu, aí, acreditas ainda que vale a pena ignorar alguns capítulos, porque a felicidade pode estar mesmo ali ao virar da página, enquanto o livro não chega ao fim.
Ambos sabemos que estamos condenados a estes grilhões de gostar do que já fizemos, sem conseguimos, simplesmente, rodar 180º.
Final de tarde. Ao longe, o sino desperta a Natureza, irrompe pelas casas adentro, lembra a hora das Trindades. As mulheres da minha aldeia rezam ainda, quase sibilando. O sol esconde-se, vagaroso, até desaparecer atrás dos montes.
As mulheres da minha aldeia têm olhos cansados, sorrisos esmorecidos, lenços pretos sobre os cabelos cor de cinza, mãos enrugadas e dedos esvaziados. Caminham amparadas por uma bengala gasta, curvadas sobre a sua própria idade. Enroscadas em xailes de lã, dão passos pequeninos e apressados.
As mulheres da minha aldeia já não lavam, vigorosas e cândidas, as roupas nos lavadouros. Já não traçam riscas de sabão azul na roupa encharcada. Já não estendem lençóis bordados nem fazem crochet. Os fornos a lenha estão sepultados. Já não há mãos sábias e com genica para amassar ovos e farinha para o folar. As varas do fumeiro ganham teias de aranha, porque já não há braços capazes de lhe chegar.
As mulheres da minha aldeia ainda se sentam nas escadas, pela manhã, para pentear os finos cabelos, entrelaçando-os e prendendo-os na nuca. Das suas orelhas enfraquecidas, pendem ainda as argolas de ouro. À cintura trazem o avental onde enxugam as lágrimas da solidão e as lágrimas da alegria de ver os filhos emigrados regressarem à terra.
As mulheres da minha aldeia já não vão à fonte buscar água nem correm para as bicas para lavar os pés ou matar a sede. Já não soltam as galinhas à porta de casa. Já não levam as vacas a pastar. Já não cantam "às almas". Já não remendam velhas roupas ou pregam botões.
As mulheres da minha aldeia ainda aquecem a água ao lume, assam castanhas, cozinham no pote, fazem cabras quando o calor é excessivo, aninham-se no escano. O apito da carrinha do padeiro ou do talhante tornou-se familiar para elas, reconhecível à distância de uma rua.
As mulheres da minha aldeia possuem uma coragem e uma tenacidade inigualáveis. Viram nascer os muitos filhos, em casa, à custa de dores e bastante sangue frio. Trabalharam a terra de sol a sol, sem temer a enxada ou a geada. Acarretaram a lenha para que a chama na lareira nunca se apagasse. Ao serão, contavam histórias, riam, jogavam às cartas.
As mulheres da minha aldeia mantém-se fiéis a esse Deus que lhes promete uma vida eterna e feliz, mas que as sacrifica ao mais duro dos silêncios, ao mais cruel dos abandonos, ao mais ingrato isolamento. Grande parte dos bancos corridos da igreja está vazia. Já são poucas as almofadas feitas à medida para amortecer o acto de ajoelhar.
As mulheres da minha aldeia envelheceram e esperam, serenas, o dia em que os seus olhos não contemplarão mais os montes que as vidraças das suas casas emolduram. E, então, a minha aldeia (como tantas outras) tornar-se-á uma sucessão de casas com os postigos para sempre fechados.
Na sua voz de menina sem idade, partilhou palavras que lhe sobraram das vivências. Sem tropeçar na memória, entoou a carta que nunca escreveu... Escutei-a, verdadeiramente encantada.
Sim, eu gostava de ter vivido nesse tempo em que os afectos se desdobravam em caligrafias aprimoradas e o amor repelia a superficialidade para exigir tempo, sinceridade, entrega, criatividade, enlevo.
No seu rosto serenado, descobri-lhe um sorriso a espreguiçar-se pela sombra dos olhos. Com naturalidade, proferiu cada palavra como se a sentisse, no mais fundo de si. Observei-a com admiração.
Sim, eu gostava de ter vivido nesse tempo em que uma carta se guardava como a memória viva dos olhares e dos beijos trocados, como registo imutável e perene do que ficou dos amores não vividos.
Numa outra ocasião, pedi-lhe que repetisse "a carta que não escrevi" para ter a certeza que jamais a esqueceria:
Nesta palavra "saudade",
Tão pequena em tamanho,
Antes que eu queira não cabe
Toda a saudade que eu tenho.
Era da minha vontade,
Escrevê-la vezes sem fim,
Mas, embora mesmo assim,
Eu não te diria metade
Do que eu sinto saudade
Quando estás longe de mim.
Fiz um rascunho e rasguei
Não sei escrever-te, não sei
E amor? Esse nem me atrevo
Embora ficasse bem.
É linda mas não a escrevo
Para que tu não a escrevas também.
Nas cartas que tu me mandas
Com quatro letras apenas,
Vê lá que simplicidade,
Só amor e saudade
Palavras tão pequenas para dizer
Coisas tão grandes, que eu sonhei
E não sei como escrevê-las, não sei
Nas cartas que comecei,
Não sei escrever-te, não sei.
Também quis mandar-te um beijo
Eram cinco letras só
Era apenas um desejo,
Mas o beijo metia dó
E nem um beijo para ti,
Que chegasse o meu afecto,
Podia caber aqui
Mas não chegava o alfabeto
Nem que fosse de A a Z,
Quanto mais de B a O
E mandar-te um beijo para quê?
Se eu não dava nem um só
Nas cartas que comecei
Não sei escrever-te, não sei
Mas não bastam palavras para seres
Assim tão mesquinho
Cartas minhas, não as abras
Não as abras, que é um anseio,
É mandar-te por correio,
Um coração inteirinho
Mas não fiques em cuidado
Que se perca um coração.
Levo o teu nome gravado
E a tua direcção
E sabes porque eu as mandei
Não sei escrever-te, não sei.
Parece que a razão é soberana e que, curiosamente, está do nosso lado. Somos disciplinantes nessa prepotência que não reconhecemos. As palavras que ouvimos são como artilharia pesada no punho do inimigo.
Na sombra dos anos mudos, confundimos as feições quase à mesma velocidade com que esquecemos as motivações. Talvez, a vontade seja tributária de um orgulho maior, porém, sem pejo, permanecemos impassíveis no nosso lugar.
E é por tudo e, afinal, por tão pouco que vamos ficando cada vez mais sozinhos, cada vez mais vulneráveis, cada vez mais ensimesmados. Seguimos em contramão, em desacordo absoluto com a nossa consciência.
Somamos desatenções com quem gostamos. Subscrevemos afastamentos tácitos. Deixamos de fazer aquilo que realmente nos dá prazer. Abdicamos de provisões anímicas. Seguimos em frente para não admitirmos as ausências incomuns que nos ferem.
Então, um dia, a vida esfuma-se. Assim: de repente e sem aviso. Por velhice, por doença, por acidente ou por capricho do destino, suspende-se a respiração para sempre. Não importa sequer a circunstância.
Quando jazemos mortos, acabam as desavenças familiares, aproximam-se os filhos encolerizados, chegam os amigos que não víamos há muito tempo. Quebram-se todas as distâncias num abraço forte.
Mas, quando tudo isso acontece, nós estamos frios e calados. Permanecemos inertes, sem conseguir sentir essa paz que os laços que perdemos envolvem, agora, em nossa homenagem.
Há um silêncio enorme entre o ponteiro dos minutos e o outro onde se empoleiram as horas. Nesse tempo, procuro focar-me nessa ausência de palavras a revestir o rodopio de pensamentos.
Os rostos das pessoas que estão sentadas ao meu lado não têm nada de misterioso. Esboçam sorrisos, expressões de pena, ares de surpresa perante as folhas das revistas cor-de-rosa. Os rostos das pessoas que estão sentadas ao meu lado parecem desassombrados.
Conseguem mesmo travar diálogos superficiais com facilidade. No tom de voz, nem uma réstia de preocupação. Nos seus gestos, não há espaço para o comedimento. Nos seus olhos, não espreitam medos. Na sua presença, não se percebem sombras.
Há um desespero intraduzível entre o ponteiro dos minutos e o outro que orquestra o ritmo dos segundos. Nesse intervalo, procuro concentrar-me nesse fim de tarde em que, sentados no muro, nos despedirmos do sol.
O meu rosto sereno, pousado na tua perna, com o cabelo estendido para as tuas mãos suaves. Hoje, o meu rosto angustiado não descansará no teu ombro, porque o meu olhar pode não saber como te encontrar depois de amanhecer.
Do outro lado da vidraça sei que a manhã já é crescida. Conto as filas dos dedais de luz no topo da persiana. Percebo que uma das pontas da cortina dormiu sobre o parapeito de mármore. Subitamente, ouço-lhe os passos no corredor silencioso. Sorrio em antecipação.
Dentro de instantes, verei o rosto que não quero ver envelhecer.
Ele ri-se sempre com essa expressão de quem abre a porta a um amigo de infância. Ele ri-se sempre com um brilho no olhar, como que na expectativa de vê-lo reflectido no(s) destinatário(s).
O rosto dele é sereno a maior parte do tempo. As pressuposições, os pensamentos, as preocupações, os pressentimentos ficam sempre por detrás desse sorriso desprevenido. A postura perante os dias é de um positivismo premente.
Aquele é o rosto que sabe como encorajar.
A prioridade da partilha vai para a tranquilidade desse rosto perante o imprevisto, o menos bom, o melhor. Nesses momentos, sinto que o nosso entendimento é simétrico.
Ontem, quando caminhava pelo passeio estreito, na direcção contrária dos carros que passavam à minha direita, reparei, de relance, num senhor de boina verde escura e cabelos brancos. Corria para segurar uma bola muito usada com o pé direito. De seguida, chutou-a para o menino. Pensei em ti. Talvez essa seja uma imagem reeditada no futuro. Talvez tenha medo dessa perspectiva.
Não quero conhecer-te os cabelos brancos, nem as rugas, nem os braços enfraquecidos, nem as dores de costas, nem a falta de paciência. Não quero ser obrigada a reconhecer-te nessa velhice.
Quero ouvir essa voz viva e bem-disposta. Quero ouvir esse entusiasmo quando contas uma história qualquer para me roubar uma gargalhada ou para me ouvir resmungar. Não estou preparada para que algum dia deixe de ser assim. Tu és o rosto que não aceito ver envelhecer.
Olho-te nos olhos. Sem me desviar um milímetro. Com a intensidade de quem procura um segredo quase esquecido. Olho-te nos olhos para me ver. Sem escalas. Sem graduações de cor. Só luz sombria, palavras inacabadas, suspiros contidos.
Vejo, então, que os teus (meus) passos de antes conduziram a nenhures. Vejo, com uma absurda nitidez, a sola gasta e os músculos cansados. Vejo, recortada nas tuas costas, essa alameda que te traz e te afasta deste chão firme. Vejo, sem premonições, as encruzilhadas onde despedaças os sonhos.
Este é um texto escrito com vagar, numa velha máquina de escrever. O desuso imprime-lhe uma antiguidade forçada e um saudosismo inusitado.
O barulho dos ponteiros do relógio da cozinha e o som das letras metálicas contra a folha de papel povoa m este silêncio. As teclas obrigam a um peso suplementar quando se carrega em cada letra. A ordem dos caracteres não é igual àquela a que me fui habituando depois de encostar esta máquina num canto do sótão, enfiada numa sacola quase nova. Por isso, é recorrente enganar-me. Quando quero escrever “a” e sai-me “q”. É um erro que se repete amiúde.
Tento calcar cada tecla com a força suficiente para que as palavras fiquem bem vincadas no verso de uma folha já utilizada. Chego a pensar que este é um momento quase histórico, talvez romântico até. Dactilografar neste tempo amolecido por computadores, tablets, telemóveis 3G.
Conforme escrevo cada linha, recupero o respectivo sinal sonoro. O parágrafo fica por minha conta, é da minha inteira responsabilidade. O mesmo acontece com a translineação ou com as letras em caixa alta.
Mesmo que precisasse do símbolo do euro não podia usá-lo. No tempo desta máquina de escrever, ainda só se conhecia o escudo. De vez em quando, como que a pontuar a cadência do meu pensamento ou o ritmo da minha intencionalidade expressiva, ouço o barulho da barra de espaço. E, mesmo agora, tive de puxar a folha atrás para colocar uma vírgula.
Antes, era preciso escrever com esmero e atenção para que o texto acabasse sem exibir qualquer mácula. Longe dos sublinhados vermelhos e verdes do Office, tentava-se obter um texto corrido, sem X a denunciar erros.
Imagem retirada da Internet
Apeteceu-me mudar o espaçamento entre as linhas e surpreendeu-se saber ainda qual o botão destinado para o efeito. O mesmo aconteceu com o ritual de destravar a máquina, alinhar a folha, definir as margens e começar a escrever.
Eis que recupero as horas que passei a gastar as pontas dos dedos nestas teclas agora prontas a estrear. Na altura, alternava as cores. As opções estavam reduzidas ao essencial: preto e vermelho. Penso em experimentar agora mesmo: gosto tanto desta cor.
Guardo um profundo respeito pelos objectos que marcaram o meu passado. Procuro preservá-los de forma a que nunca percam a dignidade para que foram concebidos. Neles permanece tanto de nós, tanto da matéria-prima de que ainda somos feitos.
Ficam horas, dias, meses, anos, esquecidos nesse sótão onde sempre voltarei para nunca me esquecer que há um prazer minimalista, sereno e completo quando, através deles, voltamos atrás no tempo.
À medida que cada letra beija rapidamente a página em branco, sorrio discretamente.
Hoje, apetece-me escrever-te. E faço-o com a mesma fúria dissimulada do momento em que peço o livro de reclamações em repartições públicas. Hoje, apetece-me escrever-te com letras arredondadas e em maiúsculas para que não haja dúvidas de que a minha desilusão não se fica apenas pelas entrelinhas. Hoje apetece-me escrever-te sem reler o que está para trás. Pode ser que, assim, percebas que cada falha, cada repetição, cada incongruência seguem tingidas de ódio irracional.
Não faças essa cara de incompreensão perante o que lês. Não faças esse olhar incrédulo quando encarares estas palavras de esguelha. Não encolhas os ombros nem laves as mãos nessa água mitificada. Não rasgues o papel. Não te escondas por detrás dos contornos menos nítidos. Não te justifiques com a miopia ou com a tua idade avançada.
Volta aqui e já. Repara nos estragos que nos fizeste, nas construções que fizeste ruir à nossa volta. É triste que nem os pilares conseguiste poupar. Repara bem no somatório de decepções em que nos enrodilhaste o coração.
Porque escreveste, afinal, uma história tão tortuosa e infeliz para duas personagens que não queriam honras de protagonismo dramático. Teríamos ficado contentes por passar despercebidas ao longo das páginas, sem causar danos ou picos de emoção. Teríamos mantido essa esperança de poder chegar ao fim e testemunhar um final feliz.
Porque nos massacras com desilusões, mágoas, vazios e frustrações consecutivas, contraditórias, tão distantes dessa amálgama de esperança ridícula e optimismo desbotado? Porque não nos poupas a um futuro dilacerado, enclausurado nessas linhas estreitas com que aprisionas os nossos sonhos? Porque não colocas, de uma vez por todas, o derradeiro ponto final? Ou deixa-nos encurraladas num parênteses? Porque nos deixas acreditar que alguém vai gostar de ler a nossa história, que alguém vai sorrir no final ou sentir-se inspirado pelos nossos comportamentos?
Porque não merecemos essa paz de presente, feita da luz que vimos esta manhã quando puxámos a persiana? Porque não usufruímos dessa serenidade de neblina que descerra a tarde fria? Porque não nos deixas, enfim, sentir essa liberdade de sermos indiferentes aos teus tentáculos?










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