Reencontro-te nessas palavras coladas num postal remetido de um país
distante. Reencontro-te nesses sorrisos que não toleramos que nenhuma máquina
fotográfica registe na sua essência. Reencontro-te nessas lembranças quentes,
quase cópias exactas do ontem que ficou entalado entre muitos hoje.
Reencontro-te nessas pequenas partilhas que cabem numa caixa de papel.
Reencontro-te na memória auditiva dessa gargalhada profunda e continuada. Reencontro-te
nesses reversos do passado nesta madrugada quase silenciosa, quase inquieta.
Reencontro-te, mas fazes-me falta aqui para conversar, deixando que as
palavras fluíssem sem que um qualquer relógio ou alarme nos desse a noção do
tempo, sem que alguém ousasse interromper o desfiar de acontecimentos ou
sentimentos.
Precisava de ti, aqui, para saber que compreenderias o que nem
precisava de te dizer e viria esse abraço esquadrinhado, seguro e tão familiar.
Preciso dessa noção de conforto, dessa certeza de ainda pertencer ao mundo que
idealizámos e pelo qual tanto lutámos. Sei que ainda queremos tatuar-lhe os
nossos sonhos, não importa o quão questionados já tenham sido, o quão chutados
para o esquecimento.
Preciso de olhar para ti e rever-me. Preciso de ver o teu olhar sereno
e penetrante para perceber que não posso ter vistas cingidas ao óbvio. Preciso
de ver os teus gestos largos e reconhecer-lhes a bondade que sempre te admirei.
Preciso de te ouvir rir para perceber que os meus lábios tensos não fazem
qualquer boa figura. Preciso daquelas noites insanas, de peripécias e de
desafios inesquecíveis.
Precisava que me levasses àquele sítio onde se vê um pôr do sol
tranquilo e demorado para perceber que o horizonte infinito não acaba com a
noite, com mais um dia. Ele renasce já dali a umas horas.
Amanhã será um novo dia, com todas as possibilidades ao meu alcance (queira eu realmente agarrá-lo). Precisava de partilhar contigo estas horas taciturnas para me sentir, novamente, com esse carisma que, um dia, me elogiaste e acabar com esta sensação de abandono anímico.
Amanhã será um novo dia, com todas as possibilidades ao meu alcance (queira eu realmente agarrá-lo). Precisava de partilhar contigo estas horas taciturnas para me sentir, novamente, com esse carisma que, um dia, me elogiaste e acabar com esta sensação de abandono anímico.
Caminho por entre estas paredes que cheiram a sofrimento desinfectado. Cada
passo acentua o medo, exalta a dúvida do que vou encontrar. Viro à direita,
vejo o 24 na porta entreaberta e a cortina corrida, lá ao fundo. Um vulto
debruçado sobre a cama onde o meu avô permanece quieto e vacilante.
Aproximo-me, sempre na esperança de o ver com aquele sorriso matreiro.
- Bom dia! Então, avô, pronto para irmos beber uma limonada?
Ele ri-se, a custo. Queixa-se das dores que lhe trucidam os rins.
- Não tarda nada o senhor Manuel está a saltar desta cama para provar um bom cozido à portuguesa -, diz uma voz suave que não estranho.
Levanto os olhos para, entre a surpresa e o pânico, confirmar o nariz adunco, num rosto oval sobre o qual recaem cabelos negros. Conheço-lhes a rebeldia. Sei de cor os contornos piscianos tatuados no seu ombro esquerdo. A Rita, dez anos depois, no leito de morte do meu avô.
- Rui, ao tempo… Não fosse esse olho azul e o outro verde e já quase não te reconhecia – observa, numa aparente serenidade.
Sim, de facto, estou gordo, cortei o cabelo, tenho algumas brancas, e trago no coração uma outra mulher. Esforço-me por esconder os nervos e devolvo ironicamente:
- Caramba. Quanto vale os meus olhos serem diferentes... Se me cruzasse contigo na rua só eu te identificaria.
- Sim, talvez…
O meu avô pergunta-me se já conhecia a voluntária e percebo-lhe a curiosidade de saber de onde e desde quando. Atropelo-lhe a intenção de tirar mais nabos da púcara, enquanto encaixo a nova informação. A Rita é voluntária? Ela que era a pessoa mais egocêntrica e egoísta da minha turma, filha única e mimada, sedenta de todas as luzes para não se rever na sua sombra.
- Fazes voluntariado aqui?
- Comecei no Verão passado, mas será para continuar. Tem sido uma experiência tão gratificante… Poder ajudar os outros fez-me descobrir tanto em mim.
- Confesso que não te imaginava nesse papel.
O meu avô interrompe-me para lhe lançar um galanteio:
- Ora, Rui! Qualquer um ressuscitaria ao ver este olhar tão dócil e belo debruçado sobre si. Se eu fosse mais novo, garanto-lhe que mudava essas ideias de ir para as Carmelitas.
Novo soco no estômago. Engulo em seco. Ela esquadrinha-me pelo canto do olho, tal como fazia quando me queria seduzir. Disfarço o choque, a estupefacção, a incredulidade, estendendo o invólucro para o meu avô.
- Sabores adocicados, em tons de branco. Não sei de quem herdaste tão bom gosto – atira-me o meu avô, com um olhar cúmplice.
Longas tardes a jogar à caça do chocolate branco. Escondia-me os bombons nos sítios mais inusitados, em igual número daqueles que ele, refastelado no sofá, ia degustando. Dava-me pistas, espaçadamente. Irritava-me tanto quanto me aguçava o apetite. Nascia, assim, um vício para toda a vida.
Vejo-a segurar na caixa dos chocolates, enquanto o meu avô se delicia com o terceiro bombom.
Na primeira vez que a convidei para sair, arrisquei e levei-a a uma chocolataria. Deveria ter percebido logo que quando manifestou a preferência por chocolate preto, nunca seríamos felizes para sempre. Ela levava um vestido que lhe deixava as costas à mostra e exibia um sorriso tão largo… Contava as anedotas que o pai lhe tinha ensinado e ria sem se importar com a vida. Era impulsiva como a liberdade que, um dia, se refreou.
O monitor de sinais vitais esguicha. O som em contínuo, linear, surreal. Ela do outro lado da cama, com os olhos pregados nas minhas lágrimas.
Mesmo em frente, uma pequena e tosca chaminé está
plantada sobre um telhado de lousa. Usa um chapéu de ferro que obriga o fumo a
revolutear, desenhando curvas e contracurvas no ar. Essas trajectórias são
ainda perturbadas pela chuva que cai sem pedir licença. Ao largo, uma cegonha
cruza o céu.
O barulho de um motor chega cortado pelo burburinho
das crianças que se abrigam debaixo dos varandins. Há ferrugem nas grades
enviuvadas, fazendo lembrar os ganchos espetados num pedaço de papel velho e
esquecidos no fundo da gaveta.
O pêlo do gato pardacento roça as minhas meias de
vidro. Enxoto-o com a mesma solenidade dos sinos a rebate. Um miar estridente
é, imediatamente, abafado pela minha tosse súbita. Pula o muro num ápice e
olha-me de esguelha, enquanto se aproxima do beiral.
Neste pátio interior, de escassos metros quadrados, a
ala esquerda está ocupada por uma mesa e três cadeiras solitárias. Sobre o
tampo de mármore repousa um prato de esmalte, com chouriço fumegante. Esse
aroma trepa pelas narinas com a mesma voracidade daqueles dias em que não se
toma o pequeno-almoço e qualquer banalidade gastronómica sabe a iguaria típica.
Mas há mais: tentadoras rodelas de salpicão, queijo
amanteigado e fresco, fogaça cortada longitudinalmente, vinho rubro em caneca
de barro e uma torta polvilhada com raspa de laranja. No espaço que sobra da
toalha, erguem-se dois copos e igual número de pratos rasos. Os guardanapos em
tons de amarelo estão dobrados com o mesmo esmero com que se vincam as calças.
Reparo, também, nas hortênsias cor-de-rosa que pendem
sobre um pesado vaso, encostado ao canto. Cada flor é, em si, uma prole de
filhas pequenas, perfeitas e ingénuas. Ao seu lado, esbraceja o loureiro, que
impressiona pelo tamanho e pela frescura das suas folhas.
Cheira a terra molhada, intercalado por uma aragem a
feno ceifado num prado próximo. A brisa faz-me cócegas nas mãos transpiradas
que sossegam no regaço. O portão esguicha para deixar entrar o tabuleiro de
onde sobressai a face morena do leite-creme.
Deito-me sobre o chão do meu quarto. O tapete às riscas é a minha única perspectiva.
Sucumbo ao cansaço dos dias vazios. Hoje, não luto contra o desânimo. Estou esgotada e, simplesmente, não me obrigo a ter esperança.
Dói-me o pulso direito, não pelo cansaço de escrever, mas pela inércia desencadeada pela desinspiração.
Sucumbo ao cansaço dos dias vazios. Hoje, não luto contra o desânimo. Estou esgotada e, simplesmente, não me obrigo a ter esperança.
Dói-me o pulso direito, não pelo cansaço de escrever, mas pela inércia desencadeada pela desinspiração.
Os vizinhos do andar de baixo são tão barulhentos. Gritam, impacientes, com os três filhos. Fazem-no alternadamente, como se fossem protagonistas de uma ópera. Ambos estão desempregados. Talvez se irritem por não terem o que pôr nos pratos. Talvez estejam angustiados com as dívidas ao banco. Talvez não saibam respeitar o silêncio alheio.
Eu só preciso de paz. É a minha necessidade absoluta. Eu só quero ficar quieta. É a minha prioridade abandonar-me à completa solidão e desfazer-me das memórias mais recentes.
O telemóvel não parava de tocar. Rasguei-lhe as entranhas e removi-lhe a bateria. Há pessoas que ainda se preocupam comigo, mas que não aprenderam que preciso deste tempo suspenso.
É de mim hibernar na Primavera e bater asas quando o frio se cola aos ossos. Vou pela necessidade de inverter a rotina, de ser contrária à multidão, de ficar acordada enquanto os outros tentam sonhar.
Sinto o ritmo pausado do meu coração, como se também ele quisesse abrandar... Em cada poro, uma ilusão descalça. A cada inspiração, a vontade férrea de escrever naturalmente.
Expiro depressa, na ânsia de conseguir chegar à ideia que me foge. Puxo o bloco, preparo a caneta e, num ápice, as minhas mãos em concha acabam com a lisura enervante do papel em branco.
As horas desfilam e nem sinal dela. Sei exactamente a posição que escolhe quando lhe falta a inspiração para escrever. Enrosca-se no chão, cola o ouvido à vida dos vizinhos e, no íntimo, dirige-lhes as culpas pela sua frustração.
A Leonor é uma escritora com uma carreira consolidada que, a cada novo romance, sofre essa espécie de tormenta que se pega à pele, trepando da ponta dos dedos aos braços desmotivados.
Sobre ela recai uma estúpida pressão. Auto-imposta, diria. Tem sempre aquela ânsia de não repetir o que já fez ou fugir àquilo que os outros já escreveram. Chega a ser doloroso imaginá-la a sofrer como se tivesse falta de ar. E sempre, sempre à distância.
Por mais que o tempo firme o nós, nestas alturas, duvido se esta é a mesma Leonor que se deita ao meu lado e conta as peripécias das suas personagens ainda antes de as passar para o papel. Aquele ar apaixonado com que fala, o entusiasmo infantil com que espera o elogio da genialidade.
Por norma, exige sempre as críticas, porque quer chegar à obra-prima. No entanto, sabe que não consegue pular esta fase de falta de inspiração sem pôr em causa o talento que todos lhe reconhecem e que ela desconfia que lhe é quase inato.
Detesto ficar arredado desta etapa, onde sei que ela só precisava do meu abraço, da minha crítica feroz para que se alimente, apanhe ar, beba um copo com os amigos e conviva com a família. No fundo, que se deixe envolver pela vida real. Amo-a, mas a cada tentativa de chegar à fala é como se duas peças contíguas deixassem uma folga crescer entre si.
A Leonor é uma escritora com uma carreira consolidada que, a cada novo romance, sofre essa espécie de tormenta que se pega à pele, trepando da ponta dos dedos aos braços desmotivados.
Sobre ela recai uma estúpida pressão. Auto-imposta, diria. Tem sempre aquela ânsia de não repetir o que já fez ou fugir àquilo que os outros já escreveram. Chega a ser doloroso imaginá-la a sofrer como se tivesse falta de ar. E sempre, sempre à distância.
Por mais que o tempo firme o nós, nestas alturas, duvido se esta é a mesma Leonor que se deita ao meu lado e conta as peripécias das suas personagens ainda antes de as passar para o papel. Aquele ar apaixonado com que fala, o entusiasmo infantil com que espera o elogio da genialidade.
Por norma, exige sempre as críticas, porque quer chegar à obra-prima. No entanto, sabe que não consegue pular esta fase de falta de inspiração sem pôr em causa o talento que todos lhe reconhecem e que ela desconfia que lhe é quase inato.
Detesto ficar arredado desta etapa, onde sei que ela só precisava do meu abraço, da minha crítica feroz para que se alimente, apanhe ar, beba um copo com os amigos e conviva com a família. No fundo, que se deixe envolver pela vida real. Amo-a, mas a cada tentativa de chegar à fala é como se duas peças contíguas deixassem uma folga crescer entre si.
Os seus fundos olhos mansos encaram-me,
desconfiados. São desse castanho-escuro que veste estas cepas que tantas
energias nos sugam. Lança-me um ar de enfado, mas compadece-se com as gotas de
suor que me lavram a testa. Ele conhece o ângulo mais remoto do gesto que vou
fazer. Eu finjo, descaradamente, que não vejo a fraqueza das suas pernas
arqueadas, fruto do cansaço de anos.
Os dois calcorreamos, calejados, estes socalcos que
fazem do Douro uma imensa escadaria, um belo jardim em cascata. Mal o sol se
espreguiça, desço ao pátio e levanto o ferrolho. Jeremias aproxima-se, antes de
ouvir a minha voz. Já lhe sei as manhas e ele, as minhas fragilidades. Os
outros não percebem o quanto gosto deste burro.
Tenho 72 anos, um alforge carregado de nostalgia desse
tempo em que os meus filhos não me chegavam à cintura. Todos reclamavam da sopa
que a Julieta lhes colocava, a ferver, nas tigelas. Nenhum deles queria ser
viticultor “quando fosse grande”. Isso entristecia-me, mas nunca lhes disse.
Hoje, têm vidas arrumadas, empacotadas em betão, arredados de mim, em coordenadas
distantes. Hoje, duvido que sejam tão felizes como quando saltitavam por entre
as poças que a chuva deixava na vinha, jogavam às escondidas atrás das videiras
carregadas ou se esgrimiam com os galhos que sobravam da poda.
O Jeremias volta à direita, um impulso que me chega à mão que prende a charrua. Sabe o caminho a tomar sem que tenha de lhe gritar, porém, no início, fazia de mim o seu escravo. A cada ordem, a execução contrária. Fui-lhe ganhando uma estima tal que nunca o cedi para qualquer empréstimo temporário, nem mesmo para serviços mínimos para os quais os meus irmãos o requisitavam.
Uma vez, passei junto de alguns catraios que riam alto. Segui caminho, sem lhes dirigir palavra. Foi então que os ouvi gritar: “lá vai o louco do velho e o seu fiel amigo”. Olhei para as orelhas espetadas do Jeremias e afaguei-lhe o lombo, sobrecarregado com molhos de couves para dar aos vizinhos.
Faltam mais três valados. O sol queima-me a nuca e as folhas das videiras, que nem com banhos de caulino se mantêm joviais. Penso na frescura da adega, onde repousa o vinho sagrado. O pêlo do animal denuncia a avidez pela sombra do palheiro.
Somos dois solitários, que aprenderam a viver com a quietude e o silêncio do pátio. Nos vasos, as plantas continuam secas e o lajado não se gastará com mais correrias. Poderei ser um velho com um burro, também ele velho, mas sei o quão valioso é ter companhia quando a casa ficou vazia.
Por hoje, a jorna está ganha. O Jeremias, contrafeito, zurra enquanto lhe puxo a corda para irmos noutra direcção. Abrando a marcha para atender a chamada do meu Gabriel. Ouço o choro da pequena Tatiana. Vou conhecê-la em Agosto. Sorrio, enquanto meto o telemóvel na algibeira.
Viro-me para partilhar a boa notícia com o Jeremias e, de repente, vejo-o caído no fundo da ladeira. O medo paralisa-me os joelhos. Fico onde estou. Os olhos fixos no seu focinho quieto à espera, sofregamente, de o ver mexer.
Ele ficará pendurado no tempo, enquanto a corda
onde se segura aguentar. Ele mantém-se firme e paciente. Ele é a metáfora do
seu criador.
Recebeu-me, com o seu ar bonacheirão por detrás dos
óculos redondos e um sorriso ligeiro, no local encantado onde cristalizava o
pretexto que fazia os petizes de outros tempos felizes. Havia cores garridas,
madeiras lisas e vários objectos nascidos delas. Havia, ali, vida à espera de
ser agarrada. E eu senti-me privilegiada por percebê-la.
Foi como espreitar um mundo que já não era meu
contemporâneo e ao qual acedi apenas pelas palavras que ele me fez chegar. Eram
carregadas de sensações radiantes e lembranças quentes, irrepetíveis.
Queixou-se dos problemas de saúde, mas sem
aborrecimento. No fundo, foram o passaporte para descobrir a sua veia
artística, para chegar ao acto criativo que fez as delícias de muitas crianças.
Começou a brincar com a memória e a habilidade e,
assim, foram nascendo esses brinquedos em madeira, que pintava de cores
alegres, como devem ser preenchidos os dias da meninice.
Eu perdia-me por aquela espécie de cais de embarque
em ponto pequeno, onde se perfilavam variedades de brinquedos à espera de se
sentirem abraçados por mãos que lhes roubassem a solidão e que os tornassem protagonistas
de aventuras no recreio, no quarto, na rua, algures no mundo.
Ele sabia construí-los e tinha a dolorosa
consciência de não ter com quem partilhar o seu saber. Contudo, não desistia de
fazer brinquedos, mesmo percebendo que os meninos e as meninas de hoje crescem
rodeados de uma parafernália tecnológica. Tinha essa esperança, hermética e
segura, que atraindo-lhes o olhar com as cores vivas e deixando tocar, teria o
cliente de palmo e meio conquistado.
Era nas andorinhas, algumas vestidas de acordo com
o fervor clubístico, que tinha mais sucesso. Faziam furor fosse pela cor, pelo
movimento ou até pelo barulho. Os carrinhos de bonecas, os cavaleiros, as
camionetas, os matraquilhos, os gregórios ou os bonequinhos de andar à roda também
não deixavam de suscitar curiosidades entusiasmadas.
Todos esses brinquedos, pensados e executados ao
mínimo pormenor, eram testemunhos das suas lembranças de menino. E ele quis (e
conseguiu) deixá-las para outras gerações. Entretanto, a filha e a neta
entraram na oficina. Elas, seguramente, gostavam de vê-lo entretido naquelas
lides tão especiais e ele reflectia nos brinquedos o sorriso delas.
Pacientemente, explicou-me os materiais que usava, o
que implicava fazê-los. Confessou a tristeza que sentia nas feiras quando as
crianças ficavam embeiçadas pelo brinquedo e os pais, por não terem dinheiro,
não lhes satisfaziam o desejo. Lamentou, ainda, que aqueles brinquedos de
antigamente morreriam quando as suas mãos se tornassem inertes.
Antes de abandonar a oficina, não resisti. De olhar
preso na panóplia de brinquedos, informei-o da intenção de levar um. Então, ele
tratou-me por menina e disse apenas: “escolha o que quiser”. Então, a menina,
ali a projectar-se como mãe, namorou os brinquedos por alguns minutos.
Ao fim de alguns passos para cá e para lá,
decidi-me pelo trapezista empoleirado em duas andas vermelhas. Naquele momento,
associei aquela imagem com a exigência desumana dos dias que correm, em que
vivemos empoleirados no medo de cair, de falhar, de não sobreviver. E ocorreu-me,
pois, o desejo de que aquele brinquedo, que condensava o saber e a memória
daquele homem, chegasse, um dia, às mãos dos meus descendentes.
Ele apresentou-me o gregório, que se exibiu para
mim dando uma pequena acrobacia, um movimento selado com o sorriso do seu
criador.
Hoje, contemplo o gregório. Encostado à parede
verde, tem vistas para a rua e ora reflecte a luz solar ora a luz difusa do
candeeiro. Percebo, então, a naturalidade e o silêncio com que ele se tornou
habitante do meu quarto desde esse dia.
Tal como os seus congéneres naquela oficina, talvez
ele seja uma passageiro solitário que aguarda ver chegar quem lhe estenda a mão
e lhe indique novos trilhos. Até lá, admiro-lhe a verticalidade, a cor viva, o
movimento familiar e, sobretudo, a memória que evoca daquela manhã.
Ontem, soube, assim de supetão, que o seu criador
não repetiria o feito. E uma vaga de tristeza atravessou-me o peito…
Não piscam, não usam pilhas, não trazem manual de instruções, não vêm em catálogos nem se encontram em hipermercados. São, assim, os brinquedos do tempo dos nossos avós: peças solitárias à espera de ganhar vida em mãos traquinas. António Fachina, artesão lamecense, troca as voltas à contemporaneidade e cria, em madeira, brinquedos de antigamente.
Começou a
dedicar-se ao artesanato em 2002, depois de toda a vida ter trabalhado como
carpinteiro. “Tive uma doença de coluna e fui proibido de fazer esforços, mas
com 70 anos não me sentia bem. Então, resolvi começar a brincar.”
Como tinha muitas madeiras em casa, decidiu fazer os moldes com base nas
recordações da sua meninice e nunca mais parou. Aos 82 anos, António passa
os dias na oficina: “isto é uma doença. Até aos domingos da parte da manhã,
fico aqui”.
Actualmente, os brinquedos de madeira caíram em desuso, fruto do avanço das
novas tecnologias, da criação de variadas linhas de brinquedos pelas grandes
marcas mundiais e do facto de outros materiais terem ocupado o lugar da
madeira. No entanto, sobram ainda resquícios da popularidade de outras épocas,
muitas vezes associados às memórias felizes dos mais crescidos.
Panóplia
de atracções
A pequena
oficina é uma espécie de lugar encantado, povoado por carrinhos de bonecas,
cavaleiros, andorinhas, camionetas pequeninas, matraquilhos, carroças de
cavalos, gregórios, bonequinhos de andar à roda, carrinhos de bois.
As
preferências parecem dominadas pela andorinha, pois “enquanto se vendem
cinco peças de outros brinquedos, vendem-se 20 andorinhas”. “As crianças começam a ver as asas bater uma
na outra e encantam-se por isso, de tal modo que nunca mais largam”,
explica.
São brinquedos que despertam a curiosidade pelas cores
garridas, pelos feitios, pela textura. São
peças que servem de trampolim para a imaginação dos mais pequenos e de
saudosismo para os adultos. “As camionetas já são para uma criança de 4 ou
5 anos e os carrinhos de bois pequeninos são para os adultos que os vêem como bibelots.”
A criança
acaba por ser um cliente fácil, pois começa a brincar e os pais, por norma,
não contrariam a sua vontade. Afinal, “a melhor maneira de tornar as crianças
boas é torná-las felizes” (Oscar Wilde).
“Também são
procurados por adultos que compram por lembrança. Dizem «no meu tempo havia
isto, vou levar um para recordação», acrescenta o artífice. As pessoas lamentam
o desaparecimento dos brinquedos de madeira e elogiam o esforço de António em
alimentar esta arte.
O brinquedo
mais barato custa cinco euros, enquanto as camionetas grandes são para dez
euros. “Depois, tenho os carros de bombeiros que custam 100 euros e o andor da
Senhora dos Remédios vai para 150 euros. Destas peças vende-se muito pouco”,
conclui.
Meio milhar
de brinquedos
Imponentes e sossegados, os gregórios vigiam a destreza e o engenho com que o artesão
constrói peças que suscitam os entusiasmos infantis. “Estes brinquedos têm
uma recordação da minha infância, que deixo para as outras gerações.”
As tábuas de pinho têm de ser cortadas numa oficina
para que fiquem com a espessura ideal. De volta ao seu recanto, o artesão
percorre as superfícies de madeira com uma plaina para alisá-las e, com uma
serrinha, faz as rodas do carrinho.
“Primeiro, talho as pecinhas todas e só começo a
pregar e a armar depois de as pintar.” As
cores, essas, repetem-se entre o amarelo e o vermelho porque “chamam mais à
atenção”. Há, porém, algumas adaptações às opções clubistas ou às
solicitações. “Já fiz andorinhas verdes e azuis e até pretas, porque um amigo
me pediu um melro-preto de bico amarelo.”
Há peças que
exigem ainda a aplicação de arames de aço ou chapas de zinco, como sejam as
andorinhas, as rodas dos carrinhos, os trapezistas ou as roletas. Por ano, António é capaz de fabricar uns
500 brinquedos.
Ainda a cheirar a tinta e a cola, perfilam-se os
objectos que acabarão por protagonizar tropelias e aventuras. “Isto morre porque ninguém quer aprender a
fazer”, sentencia.
(Em homenagem ao sr. António Fachina,
que
infelizmente não chegou a ler esta reportagem
e da qual, estou certa, muito se
orgulharia.)
Desvio a cortina porque esta maldita insónia
regressou. A escuridão começa a ser expulsa… A princípio, empurrada por uma
neblina cor-de-rosa. Depois, sacrificada nesse duelo de espadas luminosas.
E o rio que se espreguiça, no fundo do vale, é indiferente
ao cheiro a rosmaninho que me chega ao parapeito. É como se ao correr
lentamente, acariciasse as margens e o soltasse. Ao longe, o grito estridente
do melro estilhaça este silêncio virginal.
O nascer do dia tem, num primeiro instante, esse
sabor estranhamente familiar, como se experimentássemos pêssegos maduros de
olhos vendados.
E, de súbito, junta-se ao protesto do melro os
impropérios do tio Joaquim. Aquele homem, que carrega já 88 outonos, tem uma
fibra incomum e um feitio que roça mesmo o impossível. Talvez seja isso que o
conserva tão genuinamente irreverente.
O relógio marca 6h15 e já ele grita, na ombreira do
curral, aos cães adormecidos para que lhe virem o gado. Sem problemas em despertar
os miúdos dos vizinhos, não se cansa de dar ordens e ir subindo de tom. «Oh
Alzira, sua ovelha rabugenta, anda lá. Mexe-te», atira para o ovino que o
ignora. De vara de amieiro em punho, bate com estrondo na porta metálica.
Alzira e as companheiras atropelam-se para se libertar daquele pastor doido.
Pouco depois, a minha avó vem à varanda. Exige a
tio Joaquim algum respeito pelo descanso dos outros, acusando-o de tudo e mais
alguma coisa, numa fúria descontrolada de quem já se calou muitas vezes.
Ouço e decido pegar na minha máquina fotográfica,
apostado em dirimir o conflito. Para espanto da minha avó, desvio as fitas que
barram a entrada às moscas e dou-lhe um beijo de bom-dia, enquanto lhe peço que
se acalme e que desculpe o tio Joaquim. Pouco convencida, asseguro-lhe que
tinha combinado na véspera, na tasca do tio Júlio, que o acompanharia pelos
montes fora. De repente, só lhe interessa saber se levo farnel. Despeço-me e
desço apressado.
Já apanhei o rebanho no fundo da rua. Aproveitei e
tirei a objectiva de longo alcance da mochila. Fiz umas imagens, focando o
velho e solitário pastor, de costas voltadas para aquelas que continuavam a dar
entusiasmo e sentido aos seus derradeiros dias. Sofria de bronquite crónica.
Durante um quarto de hora, seguimos pelo mesmo
carreiro, mas afastados, propositadamente. Queria deixá-lo acalmar os nervos.
Fui acelerando o passo e aproximei-me, informando,
em jeito de pedido de autorização, que gostaria de acompanhá-lo. Ele, que já me
tinha topado a fotografar e fazendo-se de difícil, exigiu que o deixasse em
paz. Contrapus que aquele caminho e todos os outros eram públicos, pelo que
continuaria...
Não é que o homem volta à sua esquerda, abre uma cancela e faz entrar
as ovelhas aos pares? Eu lá ia fotografando, entusiasmado, os chocalhos, as lãs
encaracoladas. Por detrás da objectiva, perseguia os cães que entraram em último
lugar e eis que o tio Joaquim, sem mais nem menos, puxou a cancela e interditou
a minha passagem.
A mochila foi para o chão e vi, então, o raio do
velho cuspir-lhe em cima. “Fora daqui você e as suas fotografias”, ordenou,
indignado.
Sacudi a poeira das calças e limpei o suor da
testa. Olhei-o com pena. Não passava de um homem só e amargurado, mal
compreendido e pouco tolerável. Mas aquela atitude ultrapassou todos os limites…
Nem lhe dirigi palavra. Debrucei-me para apanhar a mochila.
Ele estava vergado sobre a cancela e tossia
ininterruptamente. Viu-me voltar-lhe as costas e afastar-me. Ao fundo, as
ovelhas pastavam serenas. Caminhei devagar e estanquei quando ouvi o som seco
de um corpo a cair por terra.
Corri ao encontro do tio Joaquim. Pulei a cerca. Vi
que continuava a tossir, enrolado sobre si mesmo. “O que tem tio Joaquim? Quer
água?”, disse-lhe. E ele, a espaços, responde-me: “Não. Quero é mais tempo”.
Percebi, então, que era verdade o rumor que abalava a aldeia: aquele homem
estava a morrer… Quase nos meus braços.
Ligo o motor. Espero uns minutos. Observo os números quietos no conta-quilómetros. Esfrego os olhos, ainda preguiçosos. Faço marcha-atrás, enquanto avalio, pelo retrovisor, a distância que me separa do carro do vizinho que não conheço. Reparo que o lugar do lado está, ao contrário do que é costume, ocupado.
Sigo em frente. Espero, impaciente, que a porta pouco despachada se abra na totalidade. Depois dela, a chuva molha a estrada. Hoje, vou experimentar um percurso alternativo. Talvez mais interessante ou igualmente entediante. As notícias desprendem-se do rádio.
Crise. Cortes. Corrupção. Sinónimos de um país desgovernado, sem freio. Mudo de estação. Passa música clássica. Deixo ficar. Lembro-me de desejar uma atmosfera tranquila no regresso a casa, depois de 163 quilómetros de curvas e contra-curvas, de marcha reduzida por causa de motoristas monótonos, de paisagens que casam Homem e Natureza.
Os penedos que hoje observo vão manter-se por ali, inertes e silenciosos. São testemunhos pesados de outros tempos. Enfrentam, destemidos, os dias vindouros. Acautelam a robustez no cimo de um outeiro vestido de giestas rasteiras.
Como se de um segredo se tratasse, guardam os carros que passam desenfreados, os que seguem devagar, os que param para fotografar a paisagem e/ou os que trazem à boleia. Resistem com a mesma impassibilidade às estações do ano.
Penso, pois, na efemeridade da vida. Na nossa frágil condição que, sem nos darmos conta, é uma espécie de sentença de execução sem aviso prévio. Hoje, perante estes penedos, penso nos problemas que estupidamente ensombram o presente, nas aflições dramatizadas, nas alegrias resumidas, nas saudades enfaixadas.
Adiante, há toda uma montanha penteada de verde. Não sou boa a distinguir as árvores, mas vislumbro um ar puro, percursos pedestres tranquilos, os sons distintivos dos animais. Penso nos piqueniques em família, em passeios de Domingo, noutros tempos despreocupados e feitos de encontros.
Atravesso localidades. Reparo nos nomes inusitados. Bóbeda, que na minha terra significa abóbora, dá também nome a uma aldeia. E a gama é variada: Vilela da Cabugueira, Zimão, Telões, Gralheira, Benagouro, Escariz, etc.
Num pasto, duas dúzias de ovelhas passeiam-se sem pressa, longe do olhar zeloso do pastor. Dele, o único sinal (e dos tempos modernos também), só uma cadeira de plástico debaixo de um sobreiro.
A aproximação a um pequeno povoado traz uma nova imagem: um espigueiro datado de 1850. Recupero os penedos no cimo do outeiro. Continuarão, inexoravelmente, imponentes e sérios.
Saio da estrada sinuosa. Vislumbro a profusão de sinais e cores, prenúncios de trânsito, movimento, caos - o adeus adiantado à tranquilidade de uma viagem.
Se tudo está sujeito
à infalibilidade das leis da matemática, questiono-me se haverá, realmente, métrica
para a solidão das horas quietas.
Se tudo está subjugado
à passividade das leis que os doutos escrevem, pergunto-me se haverá permissão
para os imprevistos que se intrometem nas vidas.
Se tudo se presta a
regras e códigos (recriados, obrigatórios, auto-impostos), onde cabe a
imaginação para inverter o sentido, a ousadia para descobrir, o espírito
crítico para aperfeiçoar, a ambição de querer seguir pela sombra?
Nesse futuro que havemos de viver, teremos serenidade a perfumar os
dias desempoeirados.
Ficaremos enjoados de televisão, computador e telemóvel, da pressa, do
conflito, da competitividade que hoje nos impõem, dos lembretes e das anotações,
da lista de compras e da agenda sem espaços em branco.
Voltar-se-ão a ouvir os risos das crianças a brincar na rua, a correr
atrás da bola ou a jogar ao peão. Voltar-se-ão a ouvir as discussões à volta de
um jogo de cartas, no final da tarde, enquanto se aprovam os petiscos que
repousam sobre a mesa.
Haverá energia para acordar
bem-disposto, para explorar os recantos e os poemas, para encarar quem se cruza
connosco e dar os bons-dias, para fazer compras nas mercearias, para cuidar das
flores, para empurrar os nossos filhos no baloiço ou ajudá-los com os trabalhos
de casa.
Haverá tempo para deixar de desejar que o cheiro a bolo de laranja, ao
domingo à tarde, venha da porta ao lado. Seremos, pois, convidados bem-vindos, depois
de tocar à campainha.
Soltaremos
gargalhadas, respiraremos profundamente e abraçaremos esse pôr-do-sol por fim.
Refugiar-nos-emos para escrever, para apreciar a solidão sentida de
coração cheio.
Haverá tempo de acender a lareira, ficar junto de quem gostamos e ter
apetite de conversas longas.
Provaremos que o nosso lugar é neste tempo feito de alma, que hoje como
antigamente desejamos com a mesma intensidade.
A primeira vez que o vi passar, quase não acreditei. Creio que até me ri. Distraidamente, o insólito pareceu-me tão surreal, tão irrisório, tão longínquo.
Devo ter voltado a cabeça, colocado o cabelo atrás da orelha direita e caminhado na direcção oposta, com passo seguro.
Já vi muitos crepúsculos. Já experimentei bastantes coordenadas. Já estudei vários mapas. Já fiz tantos quilómetros. Já perdi de vista o 703 que (não sei com que frequência) passava quase debaixo da minha varanda.
Tenho tantos sonhos… Simples, egoístas, exigentes, legítimos. Cuido deles com desvelo, mas não deixo que os conheçam. São meus, inexpugnavelmente meus. São o território protegido por arame farpado. São o meu passaporte secreto.
Trago-os no peito, sempre. Às vezes, elevam-me, outras, curvam-me o ânimo. Tenho tantos sonhos inconfessáveis e nunca entrei nesse autocarro.
Já apanhei chuva, vento e sol, debaixo dessa paragem. Já partilhei o banco, a manhã, o tédio com os estranhos que esperavam como eu. Já aturei gente desinteressante, dramática, bem-parecida, tagarelas no fundo.
Já senti os ombros cansados, as costas, os pulsos, os pés doridos. Já passei noites em sobressalto, com medo de não conseguir acordar a horas de chegar a tempo. Já saí de casa sem tomar o pequeno-almoço para não me atrasar.
Já deixei bilhetes de despedida, de agradecimento ou com promessas de voltar. Já carreguei malas pesadas, subindo e descendo ruas e vielas. Já falei dessas viagens, dedilhando ilusões e esperanças.
Já corri para chegar à paragem, mas nunca cheguei a apanhar esse andarilho que me levaria até sonhos, como promete a todos os que vêem o painel.
Esse autocarro circula por aí, cruzando as ruas indiferente às multidões. Esse autocarro talvez tenha o destino certo, a rota sem falhas, o caminho sem desvios, enganos ou proibições.
Nunca ousei entrar... Escolhi sempre outros autocarros ou o metro ou, mais tarde, o carro. E até agora nenhum me ajudou a chegar a essa terra utópica.
Se um dia descer desse autocarro, com nervosismo e ansiedade ou tão-somente aliviada, talvez encontre novos rostos, a possibilidade de escrever mais histórias, a adrenalina de viver, outras certezas.
Podes não a ver.
Nem a sentes.
Mas, nesses entardeceres sombrios,
ela está no ângulo morto do meu sorriso.
Podes não a tocar.
Nem a imaginas.
Mas, nesses intervalos festivos,
ela grita na minha voz mais pausada e melancólica.
Podes não a notar.
Nem a compreendes.
Mas, nesses silêncios roucos,
ela abraça-me sorrateira e com tanta força.
Penso em ti como uma inevitabilidade.
Talvez pressintas.
Mas ela, indecorosa, torce-me a saudade
ao ponto de não restar se não uma dor sem convalescença.
Estava ao canto, junto das portas envidraçadas na entrada
principal da pastelaria. Estava ali, ao canto, tão abandonado como ausente.
Esperava entediado com o vagar do tempo.
Ao lado, uma mesa ocupada por um homem engravatado em fato
elegante e um miúdo de oito anos embeiçado por uma bola de berlim.
Esperavam entretidos.
Lá do canto, ele tinha perspectiva para a preguiça de final do dia
dos empregados. Torpes e indolentes.
O homem engravatado manuseia um ecrã luminoso e impacienta-se com a
insistência do filho que o observa, inquieto.
Os seus olhares nunca se cruzam.
Há demasiada indiferença, uma pressa excessiva, um desdém
insolente para reparar o outro, para fixar o seu rosto. Seguimos, anestesiados,
nessa romagem em areia grossa.
O homem engravatado e com fato elegante ergue-se repentino. Levanta
o braço e faz sinal ao empregado momentaneamente solícito. Deixa os trocos e
puxa o filho pela mão.
Passam por ele, que continua apoiado sobre o tampo da mesa ao
canto, abraçado por essa solidão que fica depois de todos partirem para os seus
afazeres.
Cai chuva do outro lado da janela.
Deste lado, as palavras saem enxutas
De um coração enlameado.
É difícil distinguir a intensidade com que chove.
Há desejos derrotados por ambições sem sentido.
Cai chuva do outro lado da janela.
Deste lado, os gestos frios
E as certezas sepultadas.
Sim, fica prometido. Um dia vou levar-te a todos os baloiços suspensos, que estão entregues às carícias do vento ou à imobilidade total. Talvez não passem de infraestruturas de diversão obsoletas e solitárias, mas, nesse futuro que havemos de viver, não ficarão imunes às traquinices.
Um dia, vou empurrar-te sem que tu me peças, pois sei bem o bom que era sentir-me a tomar balanço quando as pontas das minhas sapatilhas mal tocavam o chão. Sei que não haverá disputas para ganhares a vez (ou talvez a minha profecia possa vir a revelar-se errada).
Um dia, vou entregar-te uma bola nova e ensinar-te-ei a dominá-la com os pés. Jogaremos em campos improvisados, com linhas imaginárias, pedras sobrepostas a fazer as vezes de postes das balizas. Não haverá lances polémicos nem jogadas de má-fé. Sim, vou deixar-te correr e saltar e brincar e rir.
Vou proibir que te aninhes no sofá antes do teu corpo se sentir extenuado. Vou proibir-te de ficares horas em frente à televisão (à excepção dos desenhos animados nas manhãs do fim-de-semana) ou de pedinchares um telemóvel (ou a tecnologia em vigor na altura) porque "toda a gente tem".
Quero que cresças a pular na rua, a andar de bicicleta pelo bairro, a jogar à bola com os vizinhos, a festejar os aniversários em garagens e não em restaurantes de fast food. Vou levar-te aos sítios da minha infância e deixar-te conviver com aqueles que me ensinaram a crescer feliz.
Sim, vou permitir que explores os meus brinquedos, os meus livros, os meus cd's e todos os outros objectos que nunca saberão contar os anos que têm. Talvez venhas a achar tudo demasiado antiquado ou, às tantas, até encontrarás algum interesse em coisas tão diferentes das do teu tempo.
Ensinar-te-ei a brincar com os legos, a construir vidas imaginárias para os bonecos que segurares nas mãos, a teres um peluche de estimação. Talvez venhas a ter um amigo imaginário (como eu) e vou lembrar-me de como a minha mãe, ainda hoje, recupera esses episódios para saber como nunca me esquecer dos teus.
Um dia, vou proteger-te dessa indiferença mundana. Vou mostrar-te que é simpático cumprimentar as pessoas na rua, com "bom dia" ou "boa tarde", especialmente quando forem velhinhos. Vou mostrar-te como é importante conhecer os vizinhos do prédio e os da frente. Vou ensinar-te a partilhar com quem precisa e a respeitar os outros, principalmente os que forem diferentes de ti.
Um dia, vou deixar de te carregar ao colo para te passar a dar a mão até ao dia em que te verei caminhar pelo próprio pé e sem amparos.















