Mal sai do autocarro e abandonei a garagem, senti o ar saturado, a poluição de uma grande cidade. Depois, vi o sol escurecido pela mediocridade dos edifícios. Voltei à direita e continuei a caminhar. Percebi as coisas no mesmo sítio, iguais a alguns meses atrás, exactamente iguais, sem uma alteração mínima. Tudo na mesma…
A praça povoada de pombas que procuram no chão de infértil algum alimento e de velhos sentados em cadeiras presas no cimento. Uns lêem um jornal que não é o de hoje. Outros olham para algum lugar que mais ninguém vê. Alguns têm caras feias, mesmo assustadoras. Com isto, apercebo-me que a falta de civismo e de o mínimo de compreensão continuam. Aposto que se levasse toneladas às costas, ninguém iria dar-se ao imenso e difícil trabalho de se desviar ligeiramente do passeio para não me dificultar a passagem. Acho que ainda não está para breve que percebam que basta que tomem um lado no passeio e deixei o outro livre, que abandonem o trajecto do ziguezague porque só atrapalha as ultrapassagens.
Dou por mim já a descer a rua sombria. As montras das lojas quase invariáveis. Só as mãos dos mendigos que se estendem à passagem dos transeuntes apressados ficaram ligeiramente mais queimadas pelo sol do verão. Se eles não precisassem mesmo não pediriam, não esticariam as mãos num gesto de clemência por uns míseros trocos que gastamos em tabaco, em guloseimas, em ganchos, em copos, em roupas caras, em farras, etc. Podemos matar a fome por uns instantes a um desgraçado, mas preferimos saciar a nossa saciedade numa opulência que chega a ser ridícula. Podíamos tão somente endereçar-lhe um sorriso selado com esperança em vez de lhe votarmos um olhar de desprezo e/ou uma cara de nojo e repugnância. Se estão sujos não é porque não possam ter uma alma bem mais limpa do que muitos de nós.
Cruzo com gente de todo o tipo: avós armadas em pop stars, vaidosas e extravagantes; empresários engravatados com laivos de exibicionismo de cada vez que atendem o telemóvel de última geração; adolescentes de cigarro ao canto da boca a aspirarem ser adultos; crianças que arrastam as mochilas e que são, por sua vez, arrastadas pelas mãos das mães; marginais encostados em paredes riscadas; semáforos que mudam de cor e pessoas a desrespeitá-los; casais viciados em olhares cúmplices; desocupados que descansam em esplanadas; prostitutas que se oferecem em esquinas imundas; pessoas com deficiência física observável; polícias que fecham os olhos às infracções de conhecidos que lhes acenam.
Vejo também as varandas com roupa estendida nas grades e janelas abertas. Começa a cheirar a almoço. E perdi a fome, perdi a noção do que vim fazer aqui, perdi a vontade de permanecer, perdi-me nesta cidade labiríntica e deforme. Não quero ficar. Tirem-me daqui! A miséria humana sempre me perturbou e, nesta manhã fresca, conseguiu fazer-me desejar ignorá-la para não sofrer.
A miseria humana, numa cidade miserável....parace paradoxal! Se eu pudesse...iria salvar-te desse mundo imundo em que hoje mergulhaste! Resta-me apenas desejar que a poluiçao (a todos os niveis) nao te deixe demasiado doente...
ResponderEliminarFeia!! Já tens duas pessoas pa te irem salvar!!! Acredita k se eu pudesse..ñ tavas aí de certeza..ms cm ñ posso,olha,tas aí..:S
ResponderEliminarPor mais k td isto te custe, aguentas-te na boa,tb ñ tens outro remédio,né?
Bjs***Ñ keiras ficar aí no fim de semana;)
OUTRO OLHAR
ResponderEliminarSábado, Fevereiro 05, 2005
Memória de 24H de Viagem, a Ocidente
Passageiro da viagem inaugural da linha diária BGC – AVR, i/v, cinco anos depois vejo que resiste.
Com poucos passageiros, o que a obriga à escala no interior do PRT, o que inicialmente não acontecia.
Perguntei-me, como então, porque não subsidiar estas linhas, tal como o avião?
Ou talvez não. Basta com que não nos extingam, com que não sangrem a região, de serviços e pessoas.
Ah, e que as pessoas, poucas que aqui existem, resistem, percebam que é mais cómodo, mais económico viajar de autocarro.
Ainda não perceberam, no seu culto ao carro-individualismo.
E o jornal que se lê, no autocarro.
De quando em vez levanto os olhos da leitura, para re-perceber onde estou.
Percebo que “a paisagem até Mirandela é diferente”, para mim até ao topo do Marão, que nos divide dos que para lá estão.
Descendo, entramos na mono-eucalipto-cultura.
Amarante, a primeira cidade, desplaneadamente ordenada e lembrando o Minho.
Acercamo-nos ao PRT, e lembro-me de Torga, “que o Homem molda a paisagem, e a paisagem o molda”.
E esta paisagem que agora que se vê não pode moldar grandes carácteres, desculpem a impertinência, mas isto que agora se vai avistando, casas plantadas em cima da auto-estrada, com fachadas viradas a Norte-Sul-Leste-Oeste, de forma indiferente, como se o fosse. É a disciplina do DESordenamento do Território levada ao extremo.
E o Porto.
Porto Sentido, canta o músico Portuense.
Porto Sujo, diria. Com as suas ruas estreitas, sombrias, fachadas enegrecidas, por onde não cabem em simultâneo carros e gentes, gentes andrajosas algumas, humildes no vestir, quase todas, onde o Norte-Portugal-Rural desembocou, e ainda desemboca.
Essa força centrípeta de algumas urbes converte-as num Buraco Negro, num sumidouro de gentes e dinheiros.
Permanentemente em obras, esta e outras.
Onde não cabem estradas, põem-se também carris, decepando árvores e jardins. Fazem-se pontes, uma, duas, três, muitas. Viadutos sub, supra.
E este Portugal que se aglomera, junta-se para quê?
Não sei.
Regresso ao meu Interior, onde alguns destes erros-males existem, e sejam poucos, porque somados não somos muitos.
Apesar da noite-madrugada, ao avistar Mirandela relembro TORGA, de que quando no seu “PORTUGAL”, comentava ao regressar ao seu “reino maravilhoso”, que por fim podia espraiar a vista, cansado de palas nos olhos.
Assim estou, sinto.
Tenho feito uma viagem anual, nesta direcção Ocidental, e sempre venho com a sensação de que a Oeste nada de novo. Nada.
Alguns afectos, por algumas gentes.
http://www.bocasb.blogspot.com/
# posted by bocasbrig @ 10:41 AM
sim...o Porto é tudo isto...
ResponderEliminarUma cidade que nos evidencia e muito as misérias da condição humana.
Melani
Se todos fizermos um esforço e usarmos bem os nossos talentos podemos criar um mundo melhor. Dar a moedinha nada resolve! Apesar de o mundo estar cheio de "vilões" e de "miseráveis" não podemos esquecer dos que lutam e por um mundo melhor e que promovem, abdicando muitas vezes de si próprios, iniciativas que visam um mundo mais justo. Pensemos na Iniciativa CAIS! Há outras mencionadas no blog http:// bioterra. blogspot.com
ResponderEliminarAMAG Bragança
PS- Continue a escrever assim...