3.26.2006

O hoje encontra-se com algo que é de ontem

Os reencontros com o passado provocam-nos sempre sorrisos de uma alegria anímica que nos alimenta e preenche, momentaneamente, as cavidades do coração que o tempo fez com que fossem ficando vazias.

Os espaços que um dia ocupámos continuam intactos na recordação que temos deles. Os espaços do passado serão só nossos, só percebidos por quem esteve lá como nós, por quem os partilhou connosco e sabe recordá-los à distância de muitos anos.

O que existe agora é um interregno de muitos dias, até de alguns anos, mas a feliz coincidência dos reencontros inesperados faz estremecer os pilares do nosso “eu”, porque há muita areia por debaixo.

A areia é a metáfora da nostalgia, da saudade, da vontade de voltar atrás… Talvez fosse bom a areia deixar de sustentar os pilares do nosso “eu” para que perdêssemos a vontade de estar sozinhos e deixássemos de nos convencer que somos capazes de enfrentar tudo sem recorrer àqueles locais, àquelas pessoas que um dia foram a sombra dos nossos passos.

Para mim, ainda vigora a lei de que vale a pena lutar por amizades que estão congeladas, intrinsecamente ligadas ao passado. Ainda que todas as evidências nos ludibriem e nos façam crer que não há maneira de as agarrar outra vez, só mais uma vez ou outras tantas vezes que sejam precisas.

De cada vez que pretendemos voltar ao de antes, com as pessoas de antes, percebemos que mudámos muito: trocámos de estilos, fizemos opções díspares, afastámo-nos do que seria impensável, aproximámo-nos do desconhecido, perdemos, caímos, levantámo-nos, mas já perdemos a capacidade de estender a mão como antes, sem receios; de sorrir com o coração; de soltar gargalhadas para oxigenar os dias; de acreditar que tudo é possível bastava sonhar sem limites, sem pesar a viabilidade das suas concretizações, sem dissecar tudo em prós e contras.

Aquilo que somos hoje é o produto final de uma soma de dias que nos parecem a anos-luz de distância, lá trás, bem longe no tempo, num tempo irrecuperável. Contudo, é com reencontros entre o hoje e o ontem que nos é possível resgatar pequenas fracções desse tempo “feliz” que tanta falta nos faz.

6 comentários:

  1. Olá Patrícia,

    "Para mim, ainda vigora a lei de que vale a pena lutar por amizades que estão congeladas, intrinsecamente ligadas ao passado. Ainda que todas as evidências nos ludibriem e nos façam crer que não há maneira de as agarrar outra vez, só mais uma vez ou outras tantas vezes que sejam precisas.
    "....

    concordo contigo..e com o teu texto..e acho que sim que vale a pena...pois se eram realmente amizades...elas continuam...poderão é estar adormecidas...poderá ter-se perdido a intimidade...mas a amizade não...

    beijinhos

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  2. Olá Patrícia,
    Que belo texto...virei relê-lo mais tarde...para de novo imaginar...
    Uma óptima semana,
    Bjs,
    Apiur

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  3. E sempre bom recordar momentos passados, momentos esses em que algo de bom nos aconteceu. Um reencontro com o passado pode passar simplesmente pelo regresso a um determinado local ao fim de muito tempo e so pelo simples facto de termos recordado que ali estivemos num determinado tempo passado, um sorriso se esboça pois lembramos que algo de bom ali aconteceu...por outro lado, poderemos recordar momentos menos bons e acabamos por cair na em tristeza, mas esses momentos talvez menos comuns!!!
    Encontrar algo ou alguem, k um dia no inevitavel "passado" que é todo o tempo que se afastou de nos, faz-nos regressar aquele momento por breves instantes, assim sao as recordaçoes, um regresso ao passado longincuo...
    Hoje, no tempo presente...amanha num tempo passado...

    Kiss

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  4. "nós" somos um momento passado..
    passado temporal.. como passado de bem estar...
    "nós" somos...

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  5. Anónimo2:34 p.m.

    Toda a realidade humana é inconcebivel sem as dimensões espaço e tempo...
    Mais um excelente post.
    beijinho
    Melani

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  6. Este é sem dúvida um dos teus melhores posts (pra somar a uns tantos outros)!
    Parabéns escreves realmente muito bem, melhor do que isso: as tuas palavras dão animo a quem as lê, porque afinal nem todas as pessoas do mundo são más. Apraz-me "conhecer" pessoas como tu!
    É bom ver que existem pessoas que nos permitem acreditar no coração do homem. Eu não conheço muitas, mas conheço as suficientes, Bjs
    Até a um dia destes!

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