6.26.2006

Os vestígios das perdas

Acabo de ver fotos tuas. E percebo, depois de ter procurado por entre as caixas das velhas recordações (sempre reavivadas de cada vez que lhes dedico um pouco do meu tempo), que não tenho nenhuma fotografia nossa.

Avalio as fotos recentes e também não te encontro por entre as pessoas fotografadas. Acabaste por sair assim da minha vida: sem fama nem glória, sem mágoa nem tristeza. Contudo, não nego que – entre outras coisas invulgares – sinto falta daqueles momentos de verdadeira insanidade mental, socialmente consentida e tolerada, que nos fazia desatar a rir às gargalhadas. Recordo já com dificuldades a intensidade do teu abraço a cada novo encontro e a alegria que hoje sei que nunca passou disso mesmo: de excessivamente efémera.

Vejo as tuas fotos e já não te reconheço como aquela pessoa que um dia foi importante para mim. É tão estranho redefinir a imagem que tenho de ti com base em dados recentes inequívocos de que a distância que forçosamente se instalou chegou para que te acomodasses e nem fizeste um gesto minimal para enviar um sinal de que não era isso que querias. Não deixa de me custar assumir que te perdi, mas dói-me bem mais equacionar a hipótese de nunca ter ocupado um lugar no teu coração como me fazias acreditar.

Percebo pela sucessão de expressões faciais iluminadas que a vida te anda a sorrir e que tens pessoas por perto que, quando tal não acontece, se encarregam de te fazer cócegas. Já não faço parte delas, mas não fico triste.

A vida afasta as pessoas só com uma condição: quando o sentimento que as une não é suficientemente forte para ultrapassar todas as barreiras. E, pelos vistos, o nosso sentimento não tinha nada daquilo que apregoavas ser duradoiro e seguro, esfumou-se com a mesma rapidez com que essa brisa te despenteou sem teres tempo de te arranjar para a fotografia.

Junto a ti aparecem novos rostos que eu não conheço, mas desejo que sejas capaz de preservá-los, já que comigo as coisas não foram assim.

5 comentários:

  1. Mais palavras para quê. A separação e a distância magoam quando não são desejadas.

    A parte da tua motivação para escrever, devo confessar k escreves cada vez melhor. Parabéns :p

    (palavras cruzadas, para continuar a dar voz aos pensamentos, desta vez a solo...)

    ***

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  2. A distância de quem amamos dói sempre e vence sempre o maior dos sentimentos....

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  3. Olá Patrícia...

    Quando uma separação acontece... algum motivo existe... como tu própria reconheces ...

    Certamente a felicidade cruzará contigo... quem sabe...logo ali ao virar da esquina???

    Beijinho com carinho

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  4. Olá PATRÍCIA
    Muito belo este teu texto, embora triste mas realista...!
    Escreves muito bem, e eu já cheguei à conclusão que quando escrevemos de forma natural, sobre o que sentimos, fazem-se textos belos e com muita intensidade, é o caso deste.
    O que aconteceu contigo, acontece na vida de toda a gente, acredita!
    Beijokas menina bonita.

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  5. Anónimo4:41 p.m.

    Parabéns, pelo exercício continuado da escrita, de que resultou esse belo texto. Triste é certo. Em tributo, segue um dos poemas mais recentes de Benedetti.

    Continuação de boa escrita,

    bB.

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    ALTERNATIVA

    "La vida se escurre entre las manos
    mientras el tiempo dice basta a nadie
    yo quisiera meterme en el silencio
    y allá quedarme atónito y sin dudas

    pero el silencio propio está vedado
    para el que lo despliega a sus expensas
    mi mundo es un secreto para el mundo
    y no tolera augurios ni testigos

    ni horarios ni capitulos ni sombras
    ni pesadillas con que emborracharnos
    la eternidad es un engañabobos
    como Dios y el infierno y los profetas

    y así mientras el rumbo llevadero
    se esconde en el amor o en los amores
    el tiempo se arrincona en el olvido
    y la vida se escurre entre mis manos"

    Adioses y Bienvenidas, Mario Benedetti (ed. Visor, Madrid 2006)

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