11.21.2008

O discurso dos engravatados

Semblantes de seriedade, uma aparência formal e uma educação cordial. Amontoam-se em espaços especiais, onde impera o luxo sóbrio ou uma simplicidade forjada. Os locais de encontro são, por norma, em entidades públicas.

Reunem-se para discutir problemáticas, sem terem um verdadeiro conhecimento de causa. Lançam estratégias, enunciam medidas, apontam fragilidades, avançam soluções inexequíveis, denunciam falhas governamentais, propõem alternativas inviáveis.

E deixam-se entrosar nesse debitar constante e demagógico, orgulhosos de si. Usam um vocabulário recheado de termos técnicos. Recorrem à legislação que poucos conhecem e que nem eles próprios dominam sem consultar a cábula que trazem no meio da papelada.

Usam sapatos engraxados e falam de agricultura, das dificuldades dos pequenos produtores, das condicionantes climáticas, dos escassos apoios estatais. Ajeitam as gravatas e sobem a pequenos pódios que lhes oferecem. Aí, reinam por momentos, perante auditórios adormecidos.

Debandam um discurso no vácuo, sem aplicação além da teoria. Tentam manter os interesses económicos e políticos ocultos. Chamam a comunicação social para que faça eco do seu palavreado. Alguns fornecem o seu discurso escrito (quantas vezes com erros ortográficos e de sintaxe!).

Gostam de apertos de mão e não dispensam as felicitações balofas dos seus congéneres. Isso fá-los crer que estiveram realmente bem. Mimam-se, mutuamente, com elogios sem fundamento.

E é o discurso dos engravatados que entretém, pontualmente, o tempo útil de quem quer trabalhar e de quem, efectivamente, vai trazendo este país de pé ou de gatas. De rasto trazem-no eles com os seus almoços / convívio, após tão empenhadas dissertações.

4 comentários:

  1. PATRÍCIA

    É BOM VER que cá continuas...
    de pedra e cal
    com os teus artigos muito bem escritos, gosto de te ler.

    Não há nada mais fascinante e cativante do que conhecer in loco novas culturas.
    Assim o fiz mais uma vez.
    Sou uma privilegiada, Deus tem sido meu Amigo por me proporcionar momentos tão magníficos.
    Consegui realizar mais um sonho na minha vida.

    Noutras áreas a coisa não corre muito bem, mas a Esperança é a última a morrer, continuo diariamente na luta por aquilo que quero, hei-de conseguir.

    Boa semana.

    Estou de regresso depois de 2 semanas de ausência.

    Já comecei a postar algumas fotos no blog MOMENTOS PERFEITOS.

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  2. Sim Patrícia, nós já trocamos e-mails.
    O meu blog era o KALINKA até Abril deste ano, por motivos pessoais tive que dar por encerrado, embora não o tivesse apagado e criei outros 2 blogs que são estes que viste agora, e dizes que não te recordas, pois é natural que não te recordes, são recentes.
    MOMENTOS PERFEITOS foi criado para ter apenas imagens/fotos minhas e textos sobre as minhas viagens pelo Mundo.
    O outro é uma continuação do kalinka, como poderás ver...
    Beijinhos.

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  3. Anónimo5:03 p.m.

    Um bom retrato, nú e crú, de uma realidade, inultrapassável?
    Leis inexequíveis, escritas a partir de palácios dourados, distantes dos destinatários. Na Agricultura, na Educação (de tantos e tantas ministros/as ainda não houve um/a que tenha alguma vez sido prof. do ensino secundário ou básico...). De uma "cientista" de sociologia, com tese sobre o mundo rural, que me perguntava como se apanham castanhas, de pé ou sentado... De uma jornalista, do Público, que recentemente, em mega-reportagem sobre o vale do Sabor, publicada em dois suplementos P2, subtitulava num deles... "Uma região onde se as amêndoas se apanham à paulada" (sic).
    Tanto desconhecimentos, de um mundo a que se destinam as leis, ou as palavras...

    Excelente artigo.

    bB

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  4. Boa-tarde, Patrícia,
    Queria deixar um convite para visitar o blogue Chocolate para a Alma (http://chocolateparaalma.blogs.sapo.pt), dedicado aos romances femininos publicados pela ASA.
    Boas leituras!

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