É sempre complicado gerir o final de uma etapa. Afinal, o que verdadeiramente conta é aquilo que fica para trás ou aquilo que esperamos que nos esteja reservado para a frente? De relance, as conquistas foram tantas que legitimam a confiança nos dias vindouros. Lembro-me, sem me demorar, das dificuldades várias, dos desafios maiores, das adversidades retorcidas, das pequenas vitórias comemoradas com cumplicidade.
À beira do poço das memórias desfragmentadas (de tão rápidas e sucedâneas que foram), puxo por aquela que me traz a emoção sentida no acto de escrever o primeiro texto. A noite tinha começado como as anteriores, tarde e descontraída, mas dentro sentia o relógio morder-me o pulso. Só algumas horas depois, a despedida se justificava. O pulso, pesado pela competitiva corrida dos ponteiros, deu corpo à adrenalina dos dedos. A inspiração nasceu simplesmente, vertendo-se em linhas que, à partida, como tantas vezes mo repetiram, tinham potencial para criar impacto. Hoje, é ainda esse texto que me deixa mais saudades… Ele foi produto de uma vontade hercúlea, resquício de uma visão pura das coisas, testemunho de colaborações simpáticas e naturais.
As semanas foram passando e, com elas, a paixão e o ímpeto passearam de mãos dadas e bem apertadas. É certo que algumas partes da vida assumiram uma prioridade invertida, algumas estagnaram, outras ressentiram-se seriamente. Contudo, só podia fazer sentido se fosse assim. A entrega total. A disponibilidade plena. Os horários trocados. As refeições apressadas ou saltadas. Ficar a escrever de madrugada ou interromper o sono por causa de trabalho. A ansiedade ante algo agendado. A pressão dos deadlines. A gratificação a surgir arrastada. Os dias menos propícios, em que parecia não haver qualquer afinidade entre a técnica e a inspiração. Enfim, o trabalho como a nossa segunda casa e quase como a nossa hipoderme.
Pelo meio, os obstáculos. Sozinhos, sempre, fomos acreditando com todas as forças e lutando com aquelas que pensávamos ser as nossas armas: dedicação, sacrifício e um companheirismo constante e incondicional. Fomos os pilares de algo que se projectou como imperial e que, graças a nós, sobreviveu com dignidade e visão de futuro promissor. Confiámos, brincámos, ajudámo-nos. Alimentámos discussões e ideais. Vimos chegar e vimos partir. Acolhemos melhor do que soubemos dizer adeus.
Hoje, chegou a nossa vez. Sem dramas nem euforias, levamos ao peito a nostalgia e a esperança. Ao pensamento já chegou a libertação de compromissos assumidos que se revelaram castradores de alguma liberdade. Fica a certeza de que faríamos tudo exactamente igual ou até tentaríamos fazer melhor. Projectamos a esperança de conseguir conservar esse espírito até ao limite, até que nos seja permitido.
A motivação não é mais do que o reflexo positivo ou negativo que algo nos suscita. Neste momento, sinto orgulho pelo legado que levo comigo, fruto de contrariedades contornadas, empenhos desvalorizados, mas acima de tudo: aprendizagens com pessoas, cuja maneira de ser e/ou de estar nos surpreenderam. É bom saber que chegaram até nós através de palavras confidenciadas a pretexto de uma entrevista e permitiram que, em troca, as perpetuássemos no papel.
Conversas com pequenos e velhos, sorrisos trocados com colegas, entre outros momentos significativos revertem-se agora em nostalgia revisitada. Cá dentro suspira também alguma tristeza pelo término de mais um ciclo, que proporcionou a vivência de uma experiência interessante.
Na hora de empacotar aquilo que é nosso, muito fica daquilo que de mais íntimo nos pertence. Fica o exemplo da nossa força de colectivo, que acabou por se ir desvanecendo. Permanece o eco das gargalhadas, sobretudo isso.
"Vimos chegar e vimos partir. Acolhemos melhor do que soubemos dizer adeus".
ResponderEliminarSem dúvida! Cheguei aos trambolhões, passei a correr e saí sem tempo. Bastou para querer a todo custo evitar o adeus, pelo "companheirismo constante e incondicional" que ali se respirava. A passagem fugaz foi suficiente para perceber muito do que sentem estes parágrafos.
Obrigado pelo vosso trabalho e pela vossa amizade! Parabéns pelo muito que conseguistes, que tão pouco foi reconhecido!
Não percas o que aprendeste e viveste na etapa que termina. Cresceste um pouco mais e foste dando algo de ti, e recolhendo algo de quem te rodeava no dia-a-dia. É isso que levas contigo, esse saber das vivências e, agora, memórias partilhadas.
ResponderEliminarO futuro pode parecer incerto, escondido por detrás do véu. Vais construí-lo à tua medida, mesmo que com as cedências por vezes impossíveis de contornar.
Boa sorte. bjs
Cara Patrícia,
ResponderEliminarCheguei aqui não sei bem como. Fico triste com a sua (para mim inesperada) saída do jornal em que escrevia. Habituei-me a considerar a qualidade do seu trabalho entre o melhor jornalismo que se faz na região. Mas bem sei que quem escreve e pensa e trabalha assim há-de ter muito para nos dar. Boa sorte.
V. Nogueira
Sem dúvida que a maior perda será a do jornal...Tens muito potencial e certamente que o futuro que te espera é bem mais amplo do que aquele que seria, se fosse de outra forma...
ResponderEliminarBeijo, com amizade! Carla