10.01.2009

Paredes meias

Foi ontem, já tarde. Ele gritava. Alto. Era capaz de se ouvir da rua. Tentei desvalorizar, aumentando o volume da música e apelando ao poder de concentração na leitura interrompida. A pouca espessura do tecto que nos separa obriga-me a ser testemunha silenciosa de algo que assumo como um drama com protagonistas reais.

Os impropérios cresciam de tom para te acertar e imaginava-te muda, numa imperturbalidade aparente, que despoletava mais do mesmo. Ele continuava a berrar sem se conseguir fazer ouvir. Movimentações desconexas. Imagens a assomar na minha consciência. Uma inércia comprometida.

Da próxima vez, quando nos cruzarmos, ocasionalmente, no elevador, evitarei o habitual cumprimento cordial. Olhá-lo-ei enojada como merecem esses indivíduos insignificantes que usam as esperanças, os sonhos e as alegrias da companheira como pano de trazer por casa para esfregar o chão que eles próprios cuspiram.

2 comentários:

  1. Olá!
    SAbe como se chama a obra de Paula rego que publicou no post?

    Obrigada pela atençao!

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  2. Pesquisas para um trabalho trouxeram-me até aqui...
    Gostei muito de ler alguns dos seus textos, este em particular... Pela sinceridade e transparência.

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