5.19.2010

Dicotomias intangíveis


A estrada mal se vê. As luzes estão desanimadas. O carro avança pela estrada estreita. Chove devagarinho para que o pára-brisas possa ensaiar um vaivém vagaroso. As tuas palavras, vindas de longe, foram mais céleres e sucintas. Na cabeça, imagens em volúpia.

No mapa das lembranças vivas, sobressaem as partilhas conjuntas. Havia tanta simplicidade nos nossos gestos, tanta beleza nas nossas palavras genuínas, tanta pureza no nosso carácter. A vida, essa mesma que troçou de nós anteontem, ainda não nos tinha ferido.

Vou entretida nos pensamentos, desligada das luzes apressadas que piscam ao meu lado esquerdo. Continuo a marcha pela noite despreocupada. Tento recuperar a última vez que estivemos juntos, porém a poeira do tempo já criou várias camadas. Não te esqueci e sou capaz de tolerar os dias e dias em que nada dizes, em que não há um sinal subtil da tua presença.

As gotas de água tornam-se mais densas e frequentes. As saudades arrastam-se pelos vidros opacos com que revesti os segredos que me deste. Há coisas que quero contar-te, só não sei quando haverá oportunidade ou até mesmo se fará sentido.

Para já, música clássica e uma estrada conhecida, com poucos carros em sentido contrário e muitas memórias à boleia do coração.

1 comentário:

  1. Anónimo4:19 a.m.

    "Ninguém conhece quem sou
    Nem eu mesmo me conheço
    E, se me conheço, esqueço,
    Porque não vivo onde estou."

    FP

    mike

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