As turbulências podem ser muitas. Os ventos podem soprar ferozes. As embarcações podem revelar-se frágeis. As coordenadas podem estar incorrectas. Os ancoradouros podem até não passar de miragens. O importante é que os companheiros de viagem estejam lá: de braços fortes e coração aberto.
É assim que, mesmo perante as ameaças e o medo de não conseguir sobreviver aos sobressaltos, se vive em alto mar. Não sou “encartada” como um amigo que tenho em Leça da Palmeira, mas sei que a minha intuição não me deixará desviar dos pontos cardeais.
Hoje foi mais um dia de navegar em águas calmas, com o horizonte a perder de vista e o farol ao longe para me lembrar que amanhã é para regressar. Hoje foi dia de esquecer os velhos do Restelo que, assiduamente, me acenam sarcasticamente. Hoje foi dia de puxar pela rede à volta do coração e partir confiante.
Não houve desânimo, desespero, desilusão, desesperança ou solidão. Ao marear, chegou uma suave brisa de orquídeas e um aroma a café vespertino. Levei uma mão-cheia de cartas, honrando os bons velhos tempos em que essa era a única forma (quiçá a mais fiável) de comunicar com quem se queria bem.
Eis que a felicidade me foi chegando nessas folhas de papel imaculado. Tingidas com palavras doces, recuperações mnemónicas, vivências nas entrelinhas e as emoções a servir de margem. Soube-me bem saber boas novas do Minho, de Bragança, de Lisboa e do Porto, reviver as vizinhanças daquela praceta com água a correr e o abraço apertado do qual não queremos desamarrar-nos.
Ali, ao leme, não podiam faltar os desvelos maternais, o orgulho paternal e a força da irmandade. Na proa, houve risota à socapa, ternuras e mimos vários, olhares profundos e gestos simples, cumplicidades partilhadas e a sombra daqueles que estão longe e se sentem mesmo ao lado.
No fundo do mar repousa uma gratidão silenciada e uma alegria indizível, enquanto repesco as palavras de Ricardo Reis: “a realidade / sempre é mais ou menos / do que nós queremos / só nós somos sempre / iguais a nós próprios”. Agora, ao olhar o breu pontuado de estrelas, sinto os pés em chão firme e volto a sentir-me não mais do que uma miúda com sorte por nunca se afastar da rota dos (re)encontros.
Gostei muito do teu texto...mas gostei ainda mais de saber que o teu dia foi bem feliz, tal como tu mereces ;)
ResponderEliminarNeste porto terás sempre abrigo e aqui terás sempre uma fiel companheira de viagem e de batalhas...
Beijinho
Um texto á tua imagem....Simples,trabalhado.. mas lindo e comovente...Beijinhos...
ResponderEliminarUm texto muito apropriado ao dia :). Gostei de te sentir feliz, e a navegar em águas calmas.... No alto mar, não se pode contar com muitas ajudas quando se está perdido e quando o mar está agitado,só a nossa intuição conta! Perto da costa, pode-se contar com a ajuda dos Farois, e esses são, todos aqueles que te adoram!
ResponderEliminarBoas navegações :)