5.02.2005

Analogia singela

Há balões pelo chão. Há balões nas paredes. Há balões que pendem do tecto. Há balões que rebentam com o excesso de ar. Há balões que rebentam sozinhos, sem motivo visível. Há balões que se esvaziam. Há balões de muitas cores e feitios. Há balões que se prendem ao pulso das crianças. Há balões que os vendedores prendem às suas mãos. Há balões que se soltam e nunca mais voltam, perdendo-se no azul infinito. Há balões e há pessoas.
Há pessoas que varrem o chão que outras pisam, sacrificando o seu livre-arbítrio para ser um qualquer balão. Há pessoas que estancaram em si mesmas, ficaram pregadas no tédio da existência, emolduradas em fotografias que preenchem painéis de paredes alheias. Há pessoas que sobrevivem à custa das outras – são os verdadeiros parasitas sociais, espirituais, etc. Há pessoas que se saturam com a abundância do supérfluo e escapam desse excesso cativo. Há quem perceba as suas razões, há quem não as perceba e há quem finja não as perceber, recusando-se conscientemente a aceitar o que é óbvio. Há pessoas cuja existência se esvazia de sentido, porque deixaram de sonhar, de acreditar, de lutar, abdicando gradualmente de tudo, por impotência, conformismo, passividade, comodismo ou porque não tiveram capacidade e coragem para arriscar. Cada pessoa tem a sua personalidade que faz com que se distinga de todas as outras. Entre as pessoas semelhantes criam-se afinidades e entre pessoas diferentes criam-se complementaridades. As pessoas que nunca deixaram de ser crianças, a maior parte do tempo, trazem consigo o brilho do entusiasmo nos olhos, a alegria e a ingenuidade das descobertas diárias, a inocência que deixa ver a verdadeira beleza da vida. As pessoas que rejeitam essa criança interior tornam-se amargas e revoltadas, angustiadas e frustradas, a maior parte do tempo. Há pessoas que vigiam a liberdade de outras, ao ponto de decidirem por elas, de acordo com intuitos egoístas, materialistas, preconceituosos e repressores. Há pessoas para as quais o único limite é o céu, por isso soltam as amarras que as prendem a hábitos, a estereótipos, a linhas traçadas, a caminhos pisados e ousam, portanto, voar com asas débeis e raramente regressam ao ninho que as viu nascer. De facto, apenas as pessoas que se transformam em balões que se soltam é que me levam a dizer que não é um desperdício quando há largadas de balões, que salpicam os céus de variadíssimas cores.
Na vida, tal como numa festa, todas as pessoas fazem falta: para aprender, para conhecer e para decidir a que categoria se quer pertencer (ou à qual se pertence); e todos os balões geram uma harmonia colorida num qualquer espaço, despertam desejos de posse nas crianças, suscitam uma contemplação distraída e fugidia em gente mais crescidinha.

4 comentários:

  1. É inexplicável mas hoje acordei com uma sensação muito estranha. Tive um "rebate" de consciência e entristeci-me subitamente por interiorizar de "rajada" que as pessoas vivem de superficialidades, e as pessoas que conseguem ser espontâneas e naturais chocam porque as pessoas não estão muito habituadas a que isso aconteça, porque vivemos num mundo preso a convenções e as pessoas são quase obrigadas a usar uma máscara. "Quem é como é e mais nada, arrisca-se a ser pouco credível", pensei eu. E acredita: andei toda a manhã a reflectir sobre isto e não consegui estar atenta à aula de Lógica. Não é que já não o soubesse mas convivia com isso como se isso não fizesse parte do meu mundo. Mas tudo isto não veio por acaso. Conheço uma pessoa, que é mesmo muito boa "pessoa", tanto tanto que me faz sentir um insecto invisível, que estuda Direito e sonha advogada, é de tal forma espontânea e pouco premeditada que uma professora da faculdade lhe disse que era pouco racional. E também conheço pessoas que vivem de "fachada", que se mostram mais do que são, porque o que são vale muito pouco, e mostram mais do que têm porque não têm é nada, essas pessoas conseguem na maior parte das vezes ser admiradas e consideradas interessantes.
    Reflecti, reflecti e cheguei á conclusão de que quem não se disfarça não consegue nada, e que tal é absolutamente imprescindível nos dias que correm. De qualquer forma decidi "ser como sou e mais nada", até porque sei que nunca vou conseguir ser de outra forma. Isto é uma ousadia, mas estou perfeitamente consciente que tudo na vida têm um preço e estou disposta a pagá-lo, nem que seja apenas para me sentir bem comigo mesma, mesmo que para isso tenha de passar o resto da vida a levar com risinhos na cara e frases do género: "és muito infantil", "és completamente doida, doente, obcecada” e tantas coisas mais. Lido com tantas pessoas no dia-a-dia, com atitudes tão diferentes que me atordoo completamente, a única coisa da qual tenho certeza é que o que sou é o único lugar seguro que conheço.
    Este texto é fantástico, deixou-me muito bem disposta por saber que felizmente ainda existem pessoas como tu. Parabéns pelo teu blog. Desculpa a linguagem e as expressões que usei no meu comentário, mas eu não consigo deixar de dizer aquilo que penso exactamente da forma como o penso. Chega: este comentário ‘tá enorme!...
    Beijos

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  2. Anónimo10:42 a.m.

    Ela há pessoas com feitio para tudo… Se calhar há “balões” que não sobem ao azul do céu porque ninguém os encheu com um gás mais leve que o oxigénio. E depois que graça tinha olhar para o céu, e, em vez de ver nuvens, estrelas, o sol ou a cor maravilhosa do céu limpo de um dia de primavera, vermos “balões” de todas as cores e feitios e até levarmos com aqueles que só chateiam. É como aquela analogia das torres humanas, que num festival de uma cidade do país vizinho são rainhas e chamam milhares de turistas á sua presença, e tais torres se assemelham á composição da sociedade, em que por escalões se organiza de muitos e fortes na base até a um único no topo, que leve, lesto, ágil e destemido arrisca tudo, inclusive a própria segurança para, poder dar uma altura nobre a tal monumento… Devemos dar graças por não andarmos vazios e tentar dar um pouco de ar aos balões vazios… mas… e há sempre um mas, quem nos garante que nós também não andamos vazios?
    Roberto F. P. Rocha

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  3. Anónimo2:20 p.m.

    Muitos parabéns!Mais um texto para mobilizar consciências...

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  4. Com certeza, que quando se fala em ter posse de alguma coisa, nos enchemos do que nos interessa e acabamos nos esvaziando do que parece não ser tão bom ao nosso paladar. Assim acabamos nos esvaziando de tantas outras coisas.
    Conclusão todos somos vazios, quando se trata de interesses subjetivos, porque a relatividade, é a propriedade deste sentimento tão nobre no mundo atual que faz o ser eu. Eu não gosto disso, eu não quero nem ouvir o que tem a me dizer sobre o assunto, e por final acabamos vazios, sem conhecer os dois lados da moeda

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