À volta da lareira, já não há o velho escano de ripas largas de madeira ou os pequenos bancos individuais. Da manta de retalhos, onde se amontoavam os brinquedos e onde se depositavam os desvelos, nem memórias definidas. Não há o frio que se espevitava do postigo a percorrer a espinha dorsal.
As vozes calaram-se. Repentinamente as paredes amarelecidas ficaram desorientadas. Sentiram-se gigantes num espaço exíguo.
O coração vive sem lembrar esses vazios, mas em noites taciturnas eles emergem urgentes. Tenho saudades desses desafios de cartas, dessas tramóias de boa fé. A percepção de um pau a fazer riscos na fina camada de cinza ressalta e havia ainda o milho. Soltado de uma mão enrugada, com unhas grandes, acabava por se desfazer em pipocas sujas, quase intragáveis (à excepção das mergulhadas em muito açúcar da lata). Em ecos diluídos chega-me agora uma espécie de lengalengas que eram proferidas a propósito.
O fogo consumia a lenha e o serão tinha a duração da sua combustão. O tempo não tinha pressa. O dia a seguir seria apenas mais um dia com vagar. As horas eram partilhadas e esquecia-se a cacofonia da televisão, coberta por um pano azul desbotado.
Hoje faz um frio diferente e não há esse lume. Amanhã, quero lembrar-me dessas noites idas e, nos confins das memórias desmanteladas, reconstituir as recordações duras.
As vozes calaram-se. Repentinamente as paredes amarelecidas ficaram desorientadas. Sentiram-se gigantes num espaço exíguo.
O coração vive sem lembrar esses vazios, mas em noites taciturnas eles emergem urgentes. Tenho saudades desses desafios de cartas, dessas tramóias de boa fé. A percepção de um pau a fazer riscos na fina camada de cinza ressalta e havia ainda o milho. Soltado de uma mão enrugada, com unhas grandes, acabava por se desfazer em pipocas sujas, quase intragáveis (à excepção das mergulhadas em muito açúcar da lata). Em ecos diluídos chega-me agora uma espécie de lengalengas que eram proferidas a propósito.
O fogo consumia a lenha e o serão tinha a duração da sua combustão. O tempo não tinha pressa. O dia a seguir seria apenas mais um dia com vagar. As horas eram partilhadas e esquecia-se a cacofonia da televisão, coberta por um pano azul desbotado.
Hoje faz um frio diferente e não há esse lume. Amanhã, quero lembrar-me dessas noites idas e, nos confins das memórias desmanteladas, reconstituir as recordações duras.
Salvador Dali

Esses pedaços de noite tão bem passados juntos daquelas pessoas que pareciam ser eternas...
ResponderEliminarAgora restam as recordações de bons tempos, em que a vítima das tramóias de cartas corria para a rua a chorar ou agarrava a mão da mae para fazer "queixinhas" :)
Lembro-me que durante a tarde, atenciosamente, preparavas o nosso lanche, com bolachas recheadas de manteiga! A recompensa pelos jogos ganhos desonestamente :p
À noite eram as pipocas que animavam, ou entao uma voz a quebrar o silencio que nos mandava apagar as velas para nao sujar o chao... :)
Tantos momentos, tantas recordações.. :)
Este é o melhor texto =)