10.05.2009

Descanso justo

Ela adormece por fim, gasta por um dia que escolheu não ser feliz. É nesta hora da noite que posso olhá-la, de frente, e sentir-me mal. Haverá coisa pior do que não dar um abraço quando a pessoa à nossa frente se transformou em boneca de porcelana fina?

Não fui capaz de te dizer qualquer palavra adequada. Hoje fui completamente inexpressiva e, talvez por isso, agora chore e me sinta revoltada por tudo… Não adianta anunciar-te esperanças vazias, quem sabe até impossíveis!

Só queria segurar-te a mão e depositar nela a próxima meta, obrigando-te a apertar os dedos para que a agarrasses. Contudo, também me apetece dizer-te que mantenhas o punho fechado para desferir a tua fúria triste no vácuo que nos aproxima. Não há nada em concreto a que possas atribuir culpas ou exigir responsabilidades. E sei que é isso que te faz assumir a posição de arguido que rejeita advogado e assume crimes que não cometeu.

Quero-te de volta e não sei como te resgatar a ti própria, na armadura de aço em que te enclausuraste. Preciso do teu olhar saltitante, do teu sorriso largo, da tua leveza simples. Precioso de ti sem essas tristezas estúpidas, subtraídas a acontecimentos mesquinhos.

Como gostaria de te ver livre para desenhares a rota de novos voos e continuares a ver em mim o alto e esguio farol de sempre, lá ao fundo, bem visível ou semi-oculto.

Hoje, desse farol apenas ruínas banhadas por um sol moribundo. É um desespero sentir-me inútil ao teu lado, porque não sei dar-te a mão e puxar, para porto seguro, esse corpo cansado e frágil.

Queria tanto que a vida te tivesse poupado a estas intempéries tempestuosas que ou matam ou destroem até levar o que de mais importante existe em cada um: a alegria de ter sonhos.

Não te quero náufraga desse desencanto. Pudesse eu, ao menos, provar-te que nada disso vale a pena... Neste momento, assobia um vento neste convés protegido em que dormimos. É um vento feito da tua respiração agitada e dos meus soluços contidos.

Amanhã, que o dia nasça com vontade de ser claro ao despertar, sem trocar ambições por derrotas, sem desnivelar emoções similares, sem querer desfazer bagagens preparadas para uma longa viagem.

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