12.29.2010

Ditado do coração

Ele tinha medo, desse que nos recusamos a acreditar que exista. Ele não conseguia ter o discernimento para perceber que esse medo lhe escravizava a liberdade, lhe intimidava as intenções, lhe arredava os trunfos.

Certa tarde, o professor dessa grande sala com mesas de madeira imaginárias mostrou-lhe o que tinha que fazer. Exigiu algum recato e deu-lhe um papel para a mão insegura. Depois, começou o exercício: fez um ditado com o coração.

Ele, atento e trocista, foi escrevinhando desinteressado. A meio e de rompante, o professor parou e ordenou que terminasse a história. Ele quis abandonar a tarefa, com medo de falhar a missão.

Contudo, o mestre que não se importava com os erros ortográficos ou sintácticos, que desvalorizava os desacertos da caligrafia, que se esquecia de verificar se estava escrito a lápis ou a esferográfica, abanou a cabeça. “É sempre mais fácil escrever com o coração. Tens que descobrir a responsabilidade de o fazer sob a vigilância, apertada e silenciosa, dos sentimentos, pois ela não te permitirá fugas ou escapes fortuitos à verdade”, disse-lhe antes de virar costas.


Ele foi reduzindo as letras aos ditames que vinham de dentro. Sentiu-se esvaziado, mais pobre até. Todavia, ultrapassado o impacto dessa primeira percepção, nunca mais parou de escrever porque percebeu que tudo não passaria de um texto inacabado num livro branco, como aquele que existia antigamente nas escolas, que passava de mão em mão, para que as crianças continuassem a projectar histórias com finais felizes.

2 comentários:

  1. Tenho estado deliciado a ler os textos magníficos deste magnífico blogue! Permita-me que neste, que está fabuloso, lhe sugira uma coisa: na frase "Ele quis abandonar a tarefa, com medo de falhar a missão.", corte "com medo de falhar a missão.", deixe ficar só "Ele quis abandonar a tarefa." Por várias razões. A principal é a da autenticidade. O professor queria que ele escrevesse com o coração nas mãos, logo, com autenticidade. Então, o "medo de falhar a missão" era a última das coisas que o faria parar. Porque ele não sabia ainda qual a missão. Ele não sabia ainda nada. Nem tinha a consciência de ter medo. Medo de quê? Do professor? Hmmm, não me parece. Ele ao professor tinha respeito, senão não tinha começado a escrever. O texto está fantástico! Dá imenso para desmontar, para pensar, para levantar questôes. Aliás, como muitos dos textos que aqui tem. Extremamente intuitivos. Bons para dissecar. desculçpe-m,e este atrevimento de invadir assim o seu espaço, ainda por cima com a má-criação de me por logo a "mandar vir" com as palavras!... Mas fiquei agarrado por elas. Logo. muito bom, ter vindo aqui! Bom dia de Reis, amanhã!

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