Manhã de sábado, depois de umas horas mal dormidas e uma noite reconfortante, um ambiente informal. Mesa de café e, à minha espera, a velha senhora. Acolhedora, simpática, interessada. No fundo, uma empatia que se foi desenvolvendo ao longo dos anos, em situações pontuais que iam quebrando a solidão de uma televisão entediante e dias pouco estimulantes.
Ali à mesa, esperámos pelo empregado. Pedimos o pequeno-almoço, que chegou pouco depois: quentinho e apetitoso. Conversámos, sem demoras. Ouvi extractos de vida, de uma história pouco feliz e, ainda assim, o rosto sereno de quem não guarda mágoas pelo que não lhe aconteceu, nem alimenta revoltas por acontecimentos resgatados aos confins dos azares.
Entre isto, nas suas costas, o episódio mais marcante que relembro desse fim-de-semana luz fosco. Nas portas de vidro, um miúdo balançava-se entre o dentro e o fora. Entretanto atrás da porta, do lado de dentro: a pequenez por viver e, de frente, do lado de fora, na rua: a velhice acabada.
Um mendigo pára para observar as mesas recheadas de bolos, cafés, torradas e pessoas gordas e indiferentes. E ali estava o pequeno a olhá-lo, sem evitar. Com curiosidade até! Eis que se dá o encontro descomplexado.
À rua chega um olhar normal, sem constrangimentos, sem penas ou falsas piedades. Em resposta, um sorriso. Triste sorriso, mas um sorriso. Demorado. Indescritível. Da minha mesa, nas costas da minha companhia, esse fragmento de autenticidade, que acabou. Bruscamente. Quando a criança é puxada por um braço, de rompante, como se a imagem que estava a guardar fosse fatal para o seu desenvolvimento sadio.
O sorriso do mendigo que entretanto se tinha tornado menos triste, regressa à expressão de resignação. Olha para o vidro da porta sem ver reflectida a esperança, segue em frente, cabisbaixo, com um sorriso edificado na tristeza. No fundo, acabei por testemunhar a liberdade de sorrir até para um desconhecido, num cruzamento difícil de partilhar.
Ali à mesa, esperámos pelo empregado. Pedimos o pequeno-almoço, que chegou pouco depois: quentinho e apetitoso. Conversámos, sem demoras. Ouvi extractos de vida, de uma história pouco feliz e, ainda assim, o rosto sereno de quem não guarda mágoas pelo que não lhe aconteceu, nem alimenta revoltas por acontecimentos resgatados aos confins dos azares.
Entre isto, nas suas costas, o episódio mais marcante que relembro desse fim-de-semana luz fosco. Nas portas de vidro, um miúdo balançava-se entre o dentro e o fora. Entretanto atrás da porta, do lado de dentro: a pequenez por viver e, de frente, do lado de fora, na rua: a velhice acabada.
Um mendigo pára para observar as mesas recheadas de bolos, cafés, torradas e pessoas gordas e indiferentes. E ali estava o pequeno a olhá-lo, sem evitar. Com curiosidade até! Eis que se dá o encontro descomplexado.
À rua chega um olhar normal, sem constrangimentos, sem penas ou falsas piedades. Em resposta, um sorriso. Triste sorriso, mas um sorriso. Demorado. Indescritível. Da minha mesa, nas costas da minha companhia, esse fragmento de autenticidade, que acabou. Bruscamente. Quando a criança é puxada por um braço, de rompante, como se a imagem que estava a guardar fosse fatal para o seu desenvolvimento sadio.
O sorriso do mendigo que entretanto se tinha tornado menos triste, regressa à expressão de resignação. Olha para o vidro da porta sem ver reflectida a esperança, segue em frente, cabisbaixo, com um sorriso edificado na tristeza. No fundo, acabei por testemunhar a liberdade de sorrir até para um desconhecido, num cruzamento difícil de partilhar.
O que importa é tentar sempre sorrir =)
ResponderEliminarE isso foste tu que me ensinaste a fazer!
Obrigada pa sempre =D
Beijo maninha***
Neste caso a indigência não esteve na pessoa do mendigo, muito menos no seu olhar generoso. Encontrei mais indigência no andrajoso gesto de quem quis privar a criança de aceitar a realidade, tal qual ela é.
ResponderEliminarA vida é exactamente como a vemos. Os muros que eventualmente a escondem (na circunstância, um brusco puxão), não são mais do que barreiras invisiveis que um dia acabamos por descortinar.
Texto belíssimo.
D.