“O Fogo e o Vento”, de Susanna Tamaro
10:28“Um dia disseste-me que admiravas a minha capacidade para cuidar das coisas, a constância com que o fazia. Efectivamente, sem constância, sem dedicação, não se consegue nada, seja em que domínio for. Não se pode estudar uma língua, plantar um pomar, cultivar uma amizade, construir uma casa. A perseverança, atenção não são dons inatos, são um caminho que se aprende a percorrer.”
“Mas são justamente estas três condições que nos ajudam a escolher o melhor caminho. A imobilidade, a paciência, o silêncio. (…) Porque as escolhas constroem um percurso. Um percurso que se revela cada vez mais duro do que deixarmo-nos simplesmente levar pela corrente.”
“Qualquer transformação é um movimento que parte do interior para o exterior.”
“O caminho espiritual autêntico não conhece o conforto da companhia, nem a tepidez do consolo. É nudez, solidão, aspereza, desespero na tempestade, sem faróis no horizonte. É a madeira do teu barco que se afunda no abismo, o nada que o tritura, juntamente com os teus ossos. Mas esse nada não é o nada dos filósofos. Quanto mais o enfrentares, mais descobrirás que é um alimento, uma rocha. A rocha que há tanto tempo procuravas para construíres a tua casa.”
O livro termina assim:
“O caminho interior lembra o trabalho que os homens antigos tinham para acender o fogo. Bate-se repetidamente com uma pedra noutra pedra, sem parar, até jorrar uma faísca. Para nascer, o fogo precisa de madeira mas, para alastrar, tem de esperar pelo vento porque, sem o fogo – o fogo do Amor – e sem o vento – o vento do espírito – os nossos dias não diferem muito de uma prisão medíocre.”
Susanna Tamaro in "O Fogo e o Vento"
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