12.09.2009

Empréstimos maternais

A tarde ensaia uma saída discreta e o portão acinzentado já ficou para trás. Ali, há correria, um crescendo de vozes, risadas em uníssono, mãos pequeninas e bocas lambuzadas. O dia vestiu-se de festa rija e ninguém arreda pé.

Deambulo por ali, desejando ser invisível… Vou-me ficando pelo rasto da nostalgia e, simultaneamente, tento imaginar… Deve ser bom poder tomar conta dos filhos dos outros. Sentirem-lhes o pulso acelerado, quando os prendem pela mão antes de os largarem como pássaros livres num recreio areado. Olharem de cima para as cabecitas desgrenhadas por uma energia incessante. Sorrirem com o coração para retribuir a quem ainda só conhece essa linguagem.

Eles andam em fila e de mãos dadas. Desordeiros, por vezes. Transbordam uma ternura que estremece qualquer sensibilidade. E correm, caem, riem. Os risos vêm mesmo das entranhas, que até arrepiam quem já não o sabe fazer.

Eles cantam, dançam e saltam. Soltam gargalhadas com a mesma insistência com que lhes puxam pela bata aos quadradinhos cor-de-rosa. Eles sabem que haverá um gesto carinhoso, uma advertência moderada, um olhar perscrutador ou tão-somente um sorriso pintado a lápis de cera. Eles sujam-se e desfilam com as nódoas, orgulhosos e senhoriais.



Há música, animação e um cheirinho a batatas fritas de pacote misturado com deliciosos pães-de-leite. Eles têm mãos gordurosas, boca cheia e uma enorme vontade de falar. Elas querem impor-lhes alguns modos, mas eles, matreiros e sobranceiros, atiram-lhes com gargalhadas sonoras.

Percebo, então, que estou no reino das mães emprestadas, onde os mimos se dão com tempo, onde as mãos ensinam a desenhar mundos melhores e a pintá-los a cores, onde a inexistência de consanguinidade reforça laços para a vida.

12.05.2009

Desacerto entre acordes

Ouço aquela música ao passar pela porta aberta. Dissuade-me a entrar, mas não impede o ressurgimento de memórias que teimo em esquecer.


(imagem retirada daqui)

Se algo do passado nos continua a incomodar, há que resolvê-lo para, posteriormente, seguir em frente sem pesos acessórios, que só diminuem o ritmo de progressão e debilitam a atitude.

12.04.2009

Descortesias censuradas

Perturba-me como certas pessoas dispensam, descaradamente, ditames básicos de uma educação cordial. No momento preciso, faço como os outros: assisto com passividade, mas intimamente censuro-me por essa postura de aparente indiferença. Aliás, simulacro de tolerância para uma convivência convencional e circunstancial.

Não consigo perceber como é que algumas pessoas podem ter tão pouca cortesia em certas situações. Ultrapassa-me que a justificação “estou mesmo com muita pressa” sirva para não se despedir de alguém, quando posteriormente vai ter que esperar meia hora na paragem do autocarro. Transcende-me que pessoas que partilham um mesmo espaço, durante 8 horas diárias, entrem e saiam sem dizer “bom dia”, “boa tarde” ou “até amanhã”. Enervam-me os atropelos desnecessários em repartições públicas, que, à força de conhecimentos certeiros, poupam longos períodos de espera.

Sim é verdade, ainda aprecio quando alguém me segura a porta em vez de a largar mesmo em frente da minha cara. Gosto que não se fume quando há crianças por perto. Simpatizo de imediato com quem cede o lugar em transportes públicos a pessoas fisicamente debilitadas, idosos ou grávidas. Aprovo a compreensão e entreajuda dos vizinhos. Estimo quando os comensais esperam que a pessoa que confeccionou a refeição se sente à mesa.

Perante o que acabo de ver, sei que esses moldes não têm qualquer valor nem lugar. Acabo por me forçar à remissão do silêncio, enquanto me envergonham esses outros que sorriem para aqueles que lhes acham graça. Desgraçados!

12.03.2009

Noite velha

No recanto do bar onde as pessoas falam alto e fumam muito, seguras o queixo com a mão e finges interesse. Sabes que não pertenço ali e, por isso, desejo-te perto mas não aqui.

No meio dos outros, há sempre histórias heróicas onde os actos quotidianos não cabem. A teatralidade com que despem tais enredos faz-te encolher na cadeira, enquanto o resto da plateia é tomada de um êxtase incompreensível.



Falas pouco e manténs o antebraço pousado na mesa colorida. Há cada vez mais fumaça a turbar as horas despejadas no copo vazio. Sabes que não vou aparecer e, por isso, espero-te no vão da escada aos "s" que me levaria até aí.

12.02.2009

Um pouco de chuva


Nesta estrada agreste, escalda a prepotência de quem passa em passeio... Os passos ouvem-se com o peso das botas militares. A marcha faz-se demorada, quase em jeito de desfile carnavalesco. Pela berma, seguimos nós, apressados e de azimute enterrado no peito desprotegido. Então, chega essa vontade enorme que caias, só para refrescar os ladrilhos que, felizmente, nos distanciam.

11.27.2009

Retorno

Há lugares que continuam lá, à minha espera, da mesma forma que os conheci. Há ruelas e travessas de memórias incómodas. Há pracetas com bancos despidos, cuja nudez é minimizada pelas folhas que se despedem das árvores angustiadas. Há algumas paredes com ensaios de intervenção social e ânimos esmorecidos. Há gente, tráfego, barulho, poluição e o escape...

Depois, existe um manancial de ângulos para recolher a cada esquina. E espero que haja luzes... Nessa residência que nunca adoptei, moram boas histórias (ainda por escrever), respiram-se cumplicidades madrugada fora, abraçam-se aqueles que trazemos sempre no coração.

Logo, amanhã e depois (ou talvez até mais tarde), quero ver o arco-íris cruzar-se com a ponte e as ondas fazerem cócegas ao areal. Então, de mãos dadas, continuarei a caminhar...


Persis Clayton Weirs

11.26.2009

Episódico

Puxam a porta, de rompante, e
Rompem por ali adentro,
Estranham as cortesias
Supõem: "morada errada".
Saem apressados,
Assustados, de
Semblantes pasmados

Sorrio para mim

E entusiasmada,
Memorizo a cena.



Todos perdidos
Em linhas rectas,
Mexem nos ângulos
Perpendiculares sobre
O vagar das auroras.

11.23.2009

(C)orações condicionais

Se tu pudesses, nesse teu jeito mimado, envergonhar-te da dimensão gigantesca dos teus braços quando o meu peito se enrosca neles, pequenino e sonhador, terias o meu sorriso matinal.

Se tu pudesses, neste anoitecer repentino, esperar-me como antes, atrás da porta sempre aberta, ver-me-ias na soleira a ensaiar cortesias breves.

Se tu pudesses, nos dias que correm, demorar-te mais um pouco até conseguirmos esticar o hoje para amanhã, eu continuaria feliz.


11.18.2009

Por aqui

Estás longe daí, mas a mensagem do telemóvel encheu-te de ansiedade. Repetiste para ti própria: “não vale a pena pensar nisso”. Desprezaste, frivolamente, esses caracteres que te incendiaram o peito dorido.



Não queres pensar nos caracteres da saudade, nem nas cores que a desbotam. Achas que este não é o momento mais adequado, sabendo de antemão que isso escapa ao teu controlo.

Não admites, porém, eu sei que já não te sentes nem daqui nem de além. Deixas, às portas da consciência, esse espírito de nómada que te move. Por isso, o desencontro com a segurança dos refúgios de antes e a ilusão dos sentimentos de pertença e de identidade.

11.15.2009

Prenúncio anunciado


(imagem retirada do blog Drawing Conclusions)

Não quero que abras a mão. Mesmo quando a forçarem. Cerra os dedos, com força, em torno daquilo que tu és realmente. Não quero que te arranquem essa parte de ti, que no fundo és tu todo.

Essencialmente, continuamos na luta. Aguerridos e crentes de que vamos vingar. Das teias afectivas, há a certeza da rede para quando os trapézios se atrapalharem. Sabemos o que queremos e isso cala as vozes que nos gritam as evidências.

Somos aquilo em que acreditamos e vivemos por isso. A felicidade não é utopia, ela mora já ali, ao virar da esquina, quando os olhos tocam a realidade que outros desejam não ver ou até lhe negam a existência. A felicidade está aqui, quando vejo a silhueta de um e a sombra do outro perfeitamente recortadas em contraluz.

Tu sabes esse abecedário de trás para a frente, é escusado repeti-lo. Tu és isso tudo que não preciso dizer-te e, portanto, sei que vais manter a mão fechada.

11.13.2009

Futuros vendados



Existe neles uma tensão em curto circuito e uma ânsia de que o dia de amanhã chegue rápido e com uma oportunidade. Deitam-se com os sonhos, mas acordam com a realidade. O chão é duro quando o pisamos descalços e frágeis. 

A falta de perspectivas gera-lhes um enorme cansaço. Há uma angústia proporcional às procuras improdutivas. Há histórias de esperança que lhes vendem gratuitamente. Sabem, então, que o livro já se fechou e ficam com uma única moral: desistir.

Têm saúde e vontade de recomeçar, mas parece que, de repente, deixaram de ter utilidade. O conhecimento e/ou experiência que adquiriram servem-lhes de pouco, ainda que se apregoe por aí, alto e bom som, a importância de os valorizar.

Existe um corropio de frustração e desespero nas suas cabeças desocupadas. Nas suas mãos, um desânimo que tentam esquecer para seguir em frente, sem se deixarem tombar no sono da inércia.

11.12.2009

Pingos de leite

O barulho irritante da máquina do café vai cronometrando a minha espera. Os não mais do que cinco minutos fazem-me desejar que chegues imediatamente. Não porque tenha muitos afazeres, mas porque não gosto de esperar.



Aproveito para escrever o papel com rascunhos de sentimentos e rabiscos do que ficou ainda por sentir. Só que o espaço à minha volta parece querer a minha atenção. A porta da entrada vai e vem sem parar, desprendendo aquele ruído grave. Os empregados preparam-se para a maratona matinal entre as mesas equidistantes.

Olho pela vidraça, na ânsia de te ver aparecer no início da rua. Nada. Só depois reparo que há mais cadeiras vazias do que gente. Uns lêem o jornal por tédio, outros pedem um café com a pressa em cima do tabuleiro. Conversa-se o mínimo, usando uma linguagem que desconhece expressões como “se faz favor”, “muito obrigado”.

São emitidas ordens ao balcão. Do lado de lá, a subserviência ao cliente mal-educado e prepotente incomoda-me. Apontam, depois, as baterias para a televisão até vir o café que lhes queime o mau humor.

Pelas mesas, já não há tentativas de diálogo, de travar conhecimento, de convivências circunstanciais. É tudo tão entornado de individualismo.

Há apenas os mais pequenos (poucos) que bebem o leite, ficam com bigodes e fazem questão de mandar beijos para os apressados, os desatentos, os irritados que não percebem sequer que podiam bem ser bonecos telecomandados num qualquer jogo de computador, accionado por um miúdo.