Pequenas Grandes Coisas

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Atribuo muita importância aos pequenos gestos, às pequenas coisas, às mais pequenas atitudes, às emoções mais simples, sobretudo porque a maioria das pessoas descura os "pormenores". Há quem aposte nas grandes manifestações de afecto, nos grandes feitos, esquecendo-se que isso só poderá ir mais além da exibição se surgir como consequência da reunião de pequenos gestos, da atenção despendida em cada pequena coisa (por mais insignificante que ela possa parecer). Admiro as pessoas que nunca descuram os pormenores, porque sei que aos poucos têm sucesso em tudo o que fazem, precisamente porque prestaram atenção às pequenas coisas.

Gosto quando me fazem surpresas - daquelas que a pessoa que a empreendeu não percebeu que o que aquilo teve de inesperado teve igualmente de bom. Ainda hoje guardo comigo a primeira rosa que alguém me deu, num gesto que surgiu simplesmente sem qualquer motivo aparente. Ainda tenho algures uma citação escrita à pressa num guardanapo, pois olhando para aquele conjunto de palavras alguém pensou que eu haveria de gostar. Leio e releio, ao final de longas noites bem passadas, uma mensagem simples que apenas deseja bons sonhos. Ainda hoje guardo, no fundo da caixa das recordações, o bilhete de autocarro ou de comboio como recordação de viagens que, mesmo tendo terminado, continuam a decorrer através destes pedaços de cartão. Há filmes, em cuja sessão de cinema, gostei particularmente de uma boa piada da(s) pessoa(s) que estavam comigo e lembro-a de cada vez que pego nos ingressos. Guardo as amostras de perfume que experimentámos no shopping para sentir a fragrância dessas incursões demoradas ao mundo dos aromas.

Se me convidam para um café, para um almoço ou jantar, para uma festa ou qualquer outro encontro social, registo os mais pequenos gestos de atenção, admiro as investidas subtis de cortesia, aprecio uma boa educação. É como se os pequenos gestos tivessem dons premonitórios, adivinhando os meus mais secretos desejos subconscientes.

Quando encontro uma camisola que já não é propriamente da cor que era nem do tamanho que antes me servia, no fundo da gaveta, volta o amor por aquela peça de vestuário porque ela testemunhou algo de importante. Quando alguém me oferece chocolates e outros doces, mais do que as calorias extra, conta o quanto de doce comportou aquele gesto simbólico. Quando sei que alguém foi visitar um lugar que desconheço, fico contentíssima quando, mesmo lá longe, essa pessoa se lembrou de me enviar um postal com umas palavras simpáticas a sintetizar a experiência e a prometer detalhes para mais tarde. Quando estou tranquila no meu canto e o telemóvel toca só para que eu possa ouvir uma música que gosto muito, experimento uma alegria breve que se prolonga mesmo depois da chamada terminar.

São estas pequenas grandes coisas que nos trazem até nós pedaços de momentos vividos com os outros, constituindo uma parte importante do arquivo biográfico do nosso percurso existencial.

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