Solidão

08:21

“Aqui só. O que é a solidão?
Só, sou eu.
Um vazio infindável, uma dor, uma paz.
Uma sensação de ser inatingível,
Enquanto só, estou protegida
Aqui, ninguém me atinge.
Reflicto acerca do que necessito,
Procuro nos outros o que preciso.
Só, não me seguro,
Mas com os outros também não me preencho.
O que busco?

Estar só dói
Mas a solidão também traz conforto.
Nesse momento nada mais me podem tirar.
A mim, sei que me tenho sempre
Basta? Não…
O dualismo separação-união,
Independência-dependência,
Gere a minha vida.”

Estas palavras são retiradas de um artigo publicado na revista Xis Ideias, cujo tema assenta na problemática da solidão. Todo o ser humano tem necessidade de ser aceite pelos outros, de receber o seu reconhecimento, de encontrar alguém ou alguma coisa que o preencha, porque o “outro” é indispensável para que nos sintamos completos. A questão nuclear é: “onde acaba o espaço de encontro pessoal e começa a solidão?

Se vos pedissem para definir solidão, provavelmente iam apontar logo a ausência de companhia como característica principal. Se vos perguntassem a quem a associam, se calhar responderiam: “idosos, órfãos, sem-abrigo”. Agora voltem-se para vocês próprios. Sim, porque cada um de nós já teve a experiência de sentir a solidão. Não teremos dificuldades em encontrar um ou vários momentos em que nos sentimos perdidos, sem rumo, completamente sós no meio da multidão.

No texto da psicóloga Marta Teixeira Bastos, sustenta-se a ideia de que são os mais novos que mais sofrem de solidão, porque “a construção de um percurso vocacional, o desenvolvimento da identidade pessoal, a separação psicológica (e por vezes também física) dos pais, a aquisição de uma maior autonomia e a construção de relações de intimidade são factores que contribuem para a emergência de sentimentos de solidão.

A falta de comunicação, de atenção, de compreensão e de aceitação pode conduzir à solidão mais dolorosa e angustiante: a solidão acompanhada. “A solidão também pode ser física quando associada à ausência de uma rede de amigos ou de uma relação de intimidade. Quer porque somos tímidos, porque vivemos isolados, porque mudamos de escola ou de cidade, podemos sofrer de solidão por não termos ninguém com quem estar. No entanto, existe muita solidão psicológica, camuflada em relações aparentemente estáveis.” Isto acontece quando nos fechamos sobre nós próprios; quando nos sentimos incompreendidos pela família e/ou desacompanhados pelos amigos; quando temos alguém mas não nos sentimos amados. Nestas circunstâncias acabamos por procurar as respostas em nós próprios, em detrimento de nos abrirmos ao outro: “ruminamos ideias vezes sem conta, ponderamos opções sem conseguirmos imaginar uma saída, damos voltas ao mesmo pensamento sem nos libertarmos.”

Mas a solidão também tem as suas vertentes positivas: “há pessoas mais dependentes dos relacionamentos do que outras e que precisam de estar frequentemente em contacto com alguém, que têm dificuldade em estar sós”, isto relaciona-se com o nível de segurança pessoal. Regra geral, as pessoas mais independentes precisam e gostam de passar mais tempo sozinhas. Pode-se definir solitude como passar tempo só e “é fundamental, segundo os especialistas, para o crescimento pessoal, o equilíbrio psicológico e a construção e fortalecimento da identidade”. De facto, é nos momentos em que estamos sós que nos é mais propícia à auto-observação e, consequentemente, ao auto-conhecimento. “Muitos estudos feitos nesta área demonstram que os momentos passados em solitude funcionam como estabilizadores de humor promovendo o desenvolvimento de um estado emocional positivo. Quando o tempo passado a sós é assumido como positivo e voluntário, promove espaços únicos de concentração, introspecção e desenvolvimento pessoal.

A solidão é frequentemente associada a tendências depressivas, auto depreciativas e auto destrutivas, porém a capacidade para lidar com a solidão depende da nossa segurança e autoconfiança: “se acreditamos que possuímos qualidades, potencialidades, valor pessoal, temos mais facilidade em partilhar com os outros as nossas dificuldades, medos, receios, ou até segredos. Não temos medo do olhar ou da censura do outro. Acreditamos que temos direito a falar e que o outro está disposto a aceitar-nos, temos coragem de partir ao encontro do outro, porque acreditamos que temos qualquer coisa valiosa para partilhar com ele. Se, pelo contrário, nos sentimos fragilizados, se temos dúvidas sobre aquilo em que acreditamos, sobre a nossa capacidade de autocrítica, de pensamento, de discernimento, então temos medo de partilhar com os outros o que estamos a sentir. Caímos facilmente num estado de isolamento, de fuga, inventamos desculpas para não comparecer a encontros, ficamos doentes nos momentos de festa e refugiamo-nos no único local em que nos sentimos seguros: nós mesmos, desaparecemos em nós próprios.

Nestes últimos casos, como podemos ajudar alguém a ultrapassar esse estado? Aqui ficam algumas dicas: aceitar a pessoa por inteiro; estar atento, presente, próximo, disponível, ser positivamente crítico; apoiar; acreditar no outro; ajudá-lo a sonhar; “obrigar” a pessoa a lutar por novos objectivos; mostrar-lhe desafios, motivá-la para novas apostas; não a deixar fugir e isolar-se; reclamar a sua presença, ajudá-la a enfrentar o mundo e os outros; envolvê-la em alguma iniciativa; proporcionar-lhe contextos de partilha e de troca; estender-lhe uma mão em que possa confiar para diminuir o seu sentimento de desajuste e de abandono. Assim, todos nos sentiremos menos sozinhos no Mundo.

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