De abalada

10:33

Um dia é incontornável. Torna-se urgente arrumar as malas, descarregando nelas tudo o que são memórias desfragmentadas, aprendizagens inconscientes. Um dia é necessário, quase inevitável, abandonar os lugares que percorremos durante algum tempo e afastarmo-nos das suas gentes. Não levamos connosco a sua essência, mas a ilusão de um sentimento de pertença.

Nos dias que passam por nós, tornamo-nos nómadas de quartos alugados, habitantes de paredes-meias com estranhos que acabam, mais tarde, por passar a desconhecidos atirados para o rés-do-chão da lembrança.


Quando os lugares deixam de ter vielas estreitas que nos cativem, esvai-se o sentido de neles permanecer. Quando as pessoas desses lugares insistem no elo que se enfraquece a cada encontro combinado, ganha-se a consciência de que nunca voltaremos a ser o que fomos. Eu não vou reagir da mesma forma e tu vais fazer o mesmo, estranhando ambos as diferenças que não reconhecemos em nós próprios.

Nesse desprendimento forçado, inerente a qualquer acto de partida, sentimo-nos um pouco mais vazios. Porém, não será esse espaço que fica por preencher a condição essencial para atracar num novo local e partir aí para novas conquistas?

O conteúdo da bagagem é despejado em arcas que arrumamos fechadas, num qualquer cantinho do sótão, até que o pó as envelheça. Nelas ficam os despojos valiosos que nos lembram as paragens da nossa rota incompleta. Nelas ficam os afectos impossíveis de restaurar se não através de lembranças vagas e difusas. Nelas habitam os que partiram connosco sem nos guardarem em malas.

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